ADOZINDA
CANTIGA PRIMEIRA
No, I’ll not weep:
I have full cause of weeping; but this heart
Shall break into an hundred thousand flaws
Or ere I’ll weep.
Shakspeare.
I
Onde vas tam alva e linda,
Mas tam triste e pensativa
Pura, celeste Adozinda,
Da côr da singella rosa
Que nasceu ao-pé do rio?
Tam ingenua, tam formosa
Como a flor, das flores brio
Que em serena madrugada
Abre o seio descuidada
A doce manhan d’Abril!
—Roupas de seda que leva
Alvas de neve que cega
Como os picos do Gerez
Quando em Janeiro lhe neva.
Cinto côr de violeta
Que á sombra desabrochou;
Cintura mais delicada
Nunca outro cinto apertou.
Anneis louros do cabello
Como o sol resplandecentes
Folgam soltos; dá-lh’o vento,
Dá no veo ligeiro e bello,
Veo por suas mãos bordado,
De um sancto ermitão fadado
Que vinha da Palestina;
Passou pelo povoado,
Foi-se direito ao castello
Pediu pousada, e lh’a deram
Porque intercede a menina:
Que o pae suberbo e descrido,
—‘N’essa gente peregrina,
Disse, quem sabe o que vem?’
—Mas pede Adozinda bella,
Tal virtude e formosura,
Quem lh’o hade negar a ella?
Não póde o pae nem ninguem.
II
Mas o outro dia á luz nada
Houve quem visse Adozinda
Debruçada em seu balcão
Haver prática alongada
Co’ aquelle velho ermitão.
Quem sabe o que lhe elle disse?
—Ninguem no castello ouviu:
Mas d’aquella occasião
A alegria lhe fugiu
Dos olhos e do semblante:
Ficou triste, sempre triste;
Mas em seu rosto divino
Fez-se formosa a tristeza.
Como olhos d’amor quebrados
Disseras os olhos d’ella;
Mas não tem d’amor cuidados,
Que a ninguem conhece a bella.
III
Qual semente arrebatada
Da flor de vergel mimoso
Pelos furacões do Outomno,
Vai no incôsto pedregoso
Cahir de serra escalvada;
Vem Abril, e a seu bafejo
Brota e nasce a linda flor,
De ninguem vista ou sabida,
Nem de damas cubiçada
Nem de pastores colhida,
E o vento da solidão
Lhe bebe o perfume em vão.
IV
Quinze annos tem Adozinda;
E desd’a vez que o romeiro
Do saio pardo e grosseiro
Lhe fallou ao seu balcão,
Faz tres para o San-João.
V
E Adozinda sempre triste
Vai sosinha pelo eirado
Pelo jardim, pelo prado;
Nem ja a divertem flores
Em que punha o seu cuidado.
Pelos sombrios verdores
De sua espessa coutada
Vaga á toa e derramada,
Como a novilha perdida,
Como a ovelha desgarrada
A quem o tenro filhinho
Lobo do mato levou:
—Desfaz-se a mãe em balidos,
Que de ninguem são ouvidos,
E o filhinho não tornou!
VI
Que tem Adozinda bella
Que em tal desconsôlo a traz?
Serão saudades do pae
Que anda co’os Mouros á guerra
Por defender sua terra
Mais a sancta lei de Deus?
Tres annos ha que se foi;
E dous filhos que levou,
A cadaqual sua espada
Com juramento intregou
De lh’a tornarem lavada
No sangue mouro descrido:
E assim cada um jurou.
Fizeram gente em suas villas,
(Que preito muitas lhe dão)
E guiaram seu pendão
Para terras de Moirama.
Ja vejo chorar donzellas,
Vejo carpir muita dama,
Que onde chega Dom Sisnando,
Com sua espada portugueza
Não ha lanças nem rodellas
Que sirvam para defesa.
VII
Mas não são do pae saudades,
Que sempre a lidar com armas
Como ellas duro se fez;
Mais lhe importam do que a filha
Seus ginetes, seu arnez.
E até—quem diria tal!—
Quando a mãe, por diverti-la,
Lhe falla do pae ausente
E lhe diz que hade voltar,
Parece que se lhe sente
O coração apertar.
—Suspira em silencio Auzenda,
Auzenda tam bella ainda
Que ao-pé da bella Adozinda
Mais irman que mãe parece
De filha tam môça e linda.
Suspira em silencio a triste,
Porque suspira não diz:
—‘Filha amante de seu pae
Conceder-me o ceo não quiz!’
—Ai! que sem razão se chora!
—Ai! Auzenda malfadada,
Tem de vir minguada hora
Que á filhinha desgraçada
Darás mais razão que agora.
VIII
Que tropel que vai nos paços
De Landim ao-pé dos rios!
Sons de festa e sons de guerra
Em seus muros e alta tôrre?
Geme a ponte, treme a terra
C’o peso d’homens armados.
Cavallos acobertados
Trotam ligeiros;—e corre
O alferes que tremolando
Vai guião de roxa cruz...
Ja chegado é Dom Sisnando.
Entre os cavalleiros todos
Sua armadura reluz:
E o pennacho fluctuante
Das plumas alvas de neve
Sôbre o elmo rutilante
De longe a vista percebe.
IX
—‘Portas do castello, abri-vos,
Correi, pagens e donzellas,
Que é chegado meu senhor,
Meu espôso e meu amor!’
Auzenda bradava e corre.
Portas se abrem, soam vivas,
E o echo da antiga tôrre
Com o som festivo acordou.
—‘Viva, viva Dom Sisnando!’
E o tropel que dobra e cresce,
E ás portas que chega o bando
Dos guerreiros triumphantes.
Do corcel suberbo desce
E aos braços anhelantes
Da cara espôsa voou.
Doce amor que os apertou
Não lhes deixou mais sentidos
Que para se ver unidos,
Ajuntar-se peito a peito,
E em laço tam brando e estreito
Longa saudade afogar.
A Auzenda gotteja o pranto,
Pranto que é todo alegria;
E o rosto que nunca infia
Do esforçado lidador
Tambem sentiu—mais que a dor
Póde o gôso!—descuidada
Uma lagryma sensivel
De seus olhos escapada.
X
Mas as lagrymas de gôsto,
Como as de mágoa, teem fim;
Dom Sisnando inchuga o rosto,
E tomando a mão á espôsa:
—‘D’onde vem, lhe diz, senhora,
Que a joia mais preciosa
Não vejo d’estes meus paços,
D’onde vem que aos meus abraços
Minha filha?..’ A filha bella,
Pasmada, trémula, a um lado,
O rosto ao chão inclinado,
Parecia humilde estrella
Que ao primeiro raio vivo
Do sol que no alvor reluz
Não fica, não, menos bella,
Porêm pállida e sem luz.
XI
Tres annos ja são passados
Que Dom Sisnando a não via,
N’essa joven, linda dama
Sua filha não conhecia.
—‘Ei-la aqui, senhor,’ dizia
A mãe, que d’um braço a trava,
‘Ei-la aqui.’—Os olhos crava
O pae na formosa filha,
E de assombro e maravilha
Mudo, estatico ficou.
Cora Adozinda, suspira,
E—‘Pae!’ disse em voz tremente
Submissa...—; languidamente
Ajoelha, osculo frio
Na paterna mão imprime:
Pranto que atelli reprime,
Corre agora em sôlto rio.
—‘Que tens tu, filha querida,
Que assim choras tam carpida?
É teu pae, que hade querer-te,
Que hade amar-te como eu te amo.’
E tomou-a nos seus braços,
E a levanta Auzenda bella.
Pasma o pae, suspira ella;
E a custo os doces abraços
De pae, de filha se deram.
XII
Pouco alegre a companhia
Entrou nos paços brilhantes;
E os atabales soantes
Pregoaram festa e alegria
No castello de Landim.
CANTIGA SEGUNDA
But yet thou art my flesh, my blood, my daughter!
Shakspeare.
I
Oh! que alegrias que vão
Pelos paços de Landim!
Que magnificos banquetes,
Que sumptuoso festim!
Juncto ao valente campeão,
Á cabeceira da mesa
Ficou a bella Adozinda.
A tam celeste belleza
Estão todos admirando;
E o imbevecido Sisnando
Não se farta de abraçá-la,
De beijar filha tam linda.
Auzenda de gôsto chora,
E abençoa a feliz hora
Em que tanto amor nasceu.
—‘Inda bem’ diz ‘que a rudeza
De tanto lidar com armas
Á innocencia, á belleza
Da amada filha cedeu!’
Ella as caricias paternas
Ja não ousa de esquivar-se;
Cora, mas deixa abraçar-se;
Ve-se que tantos affagos
A repugnancia venceram
Da timidez natural,
—Ou, se outra causa fatal,
Mais incuberta ella tinha...
Ao menos lh’a adormeceram.
II
Ja de exquisitos manjares
Os convivas saciados,
De folias e cantares
Pagens, donzellas cançados,
E dos brindes amiudados
Finda a primeira alegria,
Doce repoiso pedía
Quanto ésta noite em Landim
Velou em baile e festim.
A seus nobres aposentos
Adozinda retirada,
Com permissão outorgada
—A custo—do pae, se foi.
Auzenda, em grave cortêjo
De suas damas rodeada
Deixou ha muito o festêjo,
E em seu camarim deitada
Espera o momento anciosa
Em que a sós a amante e a espôsa
Nos braços de Dom Sisnando
Se hãode em breve confundir.
III
Como um tapete mimoso,
Juncto ao paço de Landim
Se estende jardim formoso,
De boninas arrelvado
Da verde gramma e de flores:
Remata em bosque frondoso
Cujos opacos verdores
Eternas sombras acoitam.
—De pesados sentimentos
Oppresso o peito fremente,
A respirar livremente
O ar puro da noite fria
Entrou insensivelmente
Dom Sisnando em seu vergel
Jamais tam rico docel
De azul bordado d’estrellas
Se estendeu por sôbre a terra
Do estio nas noites bellas.
IV
Alta a lua vai no ceo,
E as sombras leves e raras
Não impedem ás florinhas,
Não tolhem ás aguas claras
De brilhar co’a luz nocturna,
Menos resplendente e fúlgida,
Porêm mais suave e placida,
Mais amavel que a diurna.
Manso o vento, que murmura
Entre as folhas brandamente,
Convida suavemente
A respirar, a bebê-la,
Essa fresca viração,
Das flores exhalação,
Tam doce como o bafejo
De dous amantes queridos
Quando por amor unidos
Se dão mútuo e doce bejo.
V
Na feiticeira belleza
Da noite, do ceo, das flores
Várias d’aroma e de côres,
Sisnando todo imbebido,
No seio da natureza
Do resto do orbe esquecido,
Pouco a pouco a agitação
D’alma lhe foi abrandando,
E o pesado coração
Do affôgo desappertando:
Ja póde gemer,—suspira,
E como que se lhe tira
Um pêso de sôbre o peito,
Que a suspirar foi desfeito.
VI
Porque geme, porque anceia
Dom Sisnando, o lidador?
Sisnando, o triumphador,
Cujo alto pendão campeia
Victorioso e senhor
Por tanta suberba ameia
De nunca entrado castello,
De jamais vencida tôrre!
—Dor que lhe nasce no peito
É dor que no peito morre;
Ancia que lhe ralla a vida
Não é para ser sabida.
—E desde quando? ha tam pouco
Feliz e ditoso ainda,
Com tanta alegria e júbilo
Festejada sua vinda!..
Vassallos, espôsa, filha...
Filha!.. A filha é tam formosa!
Oh! essa Adozinda bella
Nos olhos incantadores
Tem com que matar d’amores
A metade dos humanos!
Não, não é peito sensivel
Peito que lhe resistir:
Mas o pae!.. não é possivel.
VII
Não é, não é.—Mas Sisnando,
Sem saber onde caminha,
Melancholico e pesado,
Insensivel foi entrando
Pelo bosque immaranhado
Que ao jardim avizinha:
E o silencio, que o seguiu,
Que no espesso coito habita,
Nem um verde ramo agita,
Nem uma folha buliu.
—Á toa por entre as árvores
Sem seguir carreiro ou trilho,
Nem guiado d’um só brilho
De froixa estrella que entrasse
Por tam medonha espessura,
Ora lento e vagaroso,
Ora os passos apressura,
Ja por caminho fragoso,
Ja por vereda macia,
Té que n’um claro onde os troncos
Escasseiam de repente,
E onde pallido e tremente
Seu reflexo a lua infia,
Sem o saber, foi parar.
VIII
Agreste, não feio é o sitio,
Medonho, horrivel de ver;
Porêm tem a natureza
Horrores que são belleza,
Tristezas que dão prazer,
Mão d’arte alli não chegou;
A virginal aspereza
Ficou em toda a rudeza
Que a creação lhe deixou.
De um lado, choupos anciãos
Seus ramos lobregos pendem,
E o vivo seixo fendem
Crespas raizes nodosas
Das sovereiras annosas
Que as cortiças remendadas
Têem dos estios lascadas
A pedaços a cahir.
—Do outro, altivos rochedos,
Como do ceo pendurados,
Diffundem pallidos medos
Que em funda gruta acoitados
De espectros a povoaram.
—Di-lo toda a vizinhança,
Que ou são sombras de finados,
Ou de negras bruxas más
Alli ha nocturna dança.
—Redobra ao sítio o pavor
Um jôrro alto que despenha
Saltando de penha em penha,
E os echos em deredor
Vai temeroso acordando.
Este unico som d’horror
Á callada solidão
Da mudez quebra o condão.
—Sisnando, o ardido Sisnando,
O do forte coração,
Sentiu soçobrar-lhe o ânimo:
Uma voz dentro do peito
Lhe diz que não passe ávante;
Mas outra voz mais possante,
Outra voz que é voz do fado,
Voz que ao mortal desgraçado
Não deixa fôrça ou razão,
Lhe brada: Persiste, segue...
—Ai do que a ella se intregue,
Que se intrega á perdição!
IX
No seixo cavada grutta
Tem escassa entrada aberta,
Quasi de todo cuberta
De festões d’hera lustrosa
Que cingindo a rocha bruta
Pende em grinalda ramosa.
Entre as folhas, que meneia
Ligeiro sôpro de vento,
Viu Sisnando—e alma lhe anceia—
Um lampejar vago, incerto
De luz fraca,—ouve um accento
De voz doce mas gemente,
Voz que se ouve que está perto,
Que intoa suavemente
Uma angelica harmonia,
Tam triste que faz chorar!
E ésta voz assim dizia
Em seu languido cantar:
—‘Anjos do ceo, acudi-me,
Valei-me, sanctos do ceo,
Que me rouba mais que a vida
Quem só a vida me deu.
‘Sancto ermitão, que me deste
Aquella esperança ainda
Que a desgraçada Adozinda
Viria a ser venturosa
Apóz de longo penar...
Sorte que vieste
Sôbre mim deitar,
Sorte desastrosa
Vem ver começar.
‘Anjos do ceo, acudi-me,
Valei-me, sanctos do ceo,
Que me rouba mais que a vida
Quem só a vida me deu.
Mas ah! tam negro crime,
Tam horrida paixão
D’um pae no coração...
D’um pae...—Como é possivel!
Não, não, não hade entrar.’
X
—‘Pois treme, infeliz, e sabe
Que essa horrorosa paixão
Aqui n’este coração...’
Sisnando, a quem ja não cabe
No peito a angústia, o tormento
De tam criminoso amor,
N’estas vozes de terror
Rompendo, a caverna entrou.
XI
Oh que pavoroso instante!
Os anjos todos cubriram
Seus rostos co’a aza brilhante;
Sem vento os troncos d’emtôrno
A ramagem sacudiram;
A lua no ceo mais pallida
Como de susto infiou
E para traz da montanha
Foi correndo, e se eclipsou.
XII
Quem hade a filha chorar
Que está nos braços paternos!
Oh! quem se hade horrorizar
Dos beijos doces e ternos
Que o amor...—Que amor é esse
De ouvir tam medonho horror
O proprio inferno estremece,
E só lá... ha tal amor!
XIII
Oh! como heide eu cantar
Se no peito a voz me treme!
Historia que é de chorar,
Quem a diz não canta, geme.
—Só não gemia Adozinda,
Que toda morta, gelada,
Sancto Deus!—mais bella ainda,
Na viva rocha, estirada
Como um cadaver ficou.
XIV
E o pae ousou levantá-la,
E apertar juncto a seu peito
Aquella morta belleza!
—Repugnou a natureza;
E, da paixão a despeito,
De si a affasta, vacilla...
O anjo da sua guarda
Inda um momento o resguarda...
Mas ha na terra ou no ceo
Fôrça maior que a paixão,
Que subjugue um coração
Que d’amor indoudeceu?
Se a ha, não lhe acudiu Deus,
Venceram peccados seus.
Lembrou-lhe fugir... ficou:
Sim, lembrou-lhe a salvação...
E á sua condemnação
O infeliz se votou.
XV
Geme, chora; altos soluços
Do peito lhe véem bradando;
Porêm fugir de Adozinda
Não póde o triste Sisnando.
Ella acorda, e em voz sumida:
—‘Piedade, senhor, piedade!...’
Só pôde dizer: perdida
Nos echos da soledade
Vai soando e murmurando
A voz triste e condoida.
Ouve-a elle; e o coração
No peito lhe estremeceu;
Na execranda pretenção
Recúa,—mas não cedeu.
XVI
Palavras que lh’elle disse,
Respostas que lh’ella deu,
Oh! não as contarei eu,
Não as contará ninguem....
Quiz que lh’ella promettesse
(E a terra alli não se abriu
Quando tal a um pae ouviu!)
Que para a noite seguinte,
Quando tudo em paz jazesse
Em seu leito o recebesse....
XVII
Chora a infeliz, chora, geme,
De horror e de pasmo treme:
Insta o perigo imminente,
A esperança na demora....
Com voz cortada e gemente:
—‘Senhor, não insteis agora,
Deixae-me cobrar alento,
E ámanhan responderei.’
—‘Pois solemne juramento
Farás de que...’—‘Sim, farei...’
—‘Que ámanhan, antes que o dia
Do horisonte despareça,
Darás resposta final
E ai de ti, ai do mortal
A quem ousasses!...—Pereça
O infeliz n’esse momento:
Só a morte, só o inferno
De meu cru resentimento
O poderiam salvar.’
CANTIGA TERCEIRA
I must a tale unfold whose lightest word
Will harrow up thy soul; freeze thy blood;
Make thy two eyes, like stars, start from their spheres.
Shakespeare.
I
Que mau fado, que hora má,
Oh! qual agoirada estrella
Levou Adozinda bella
Á fadada grutta escura?
Que foi ella fazer lá?
No mais denso da espessura,
A tão aziagas horas,
Só, alta noite, a deshoras,
Sem donzella ou escudeiro,
Como o pedia a decencia,
Sem levar mais companheiro
Que sua debil innocencia,
Que seu joven coração!
II
Quem o sabe?—No castello
Nem a propria mãe, que a adora,
Que pela filha querida
Dera tudo, dera a vida...
Nem a propria mãe sabê-lo!
E como é que Auzenda ignora,
Por que incanto ou maravilha,
Que ao pino da meia noite
Todos os dias a filha
O escuro parque atravessa,
E tenteando a treva espessa
Vai sosinha áquella grutta
Que no mais claro do dia
Ninguem a entrar ousaria?
—Mas vai; não o sabe Auzenda:
N’este segredo fatal
Coisa sobrenatural,
Coisa medonha, tremenda
Ha por certo... oh! que inda mal!
III
Desde aquella madrugada
Que Adozinda em seu balcão
Fallou c’o velho ermitão,
De noite á grutta fadada
Sempre vai. Sibille o vento
No bosque medonho e feio,
Ás nuvens o pardo seio
Rasgue horrisono trovão,
Nada teme; a passo lento,
Só, para alli se incaminha
E em rezas, em penitencia
Horas longas jaz sosinha.
Talvez d’aquelle romeiro,
Por salutar providencia,
Seu fado lhe foi preditto;
Talvez lhe fôsse prescritto
Por tam sancto conselheiro
Que passasse em oração
N’aquellas medonhas fragas
Certas horas aziagas
Em que a fatal conjuncção
D’um astro seu inimigo
Maior fizesse o perigo
Da terrivel maldicção
Que a persegue,—ella inocente!—
Que tam injusta cahiu
N’aquella votada frente...
Mas diz que não ha condão
Peior que o da maldicção!
E quantas não attrahiu
Sôbre a familia inculpada
A suberba despiedada
D’esse orgulhoso Sisnando?
Quantas vezes o infeliz,
C’os filhinhos expirando,
Á porta do seu castello
Se viu gemendo e chorando,
E o desalmado senhor
Essa gentalha atrevida
Escorrassar a mandou!
Taes peccados não guardou
Para os punir na outra vida
O supremo Arbitrador.
IV
Mas ja despontava o dia,
Que tam alegre hoje vem,
Tam risonho parecia,
Que não dissera ninguem
Senão que traz alegria:
—E tantas, tam negras mágoas,
Nunca as trouxe o sol nascente
Desde que assoma no oriente
E se sepulta nas aguas.
Toda a noite longa, immensa,
Auzenda velou chorando,
De suas lagrymas regando
O leito viuvo e só;
A ninguem sua dor intensa
A desgraçada confia:
Ninguem da triste houve dó,
Que do espôso em companhia
Todo o castello a julgou.
Porêm a noite passou,
E porfim, do novo dia
Ja o alvor vinha raiando,
Sem apparecer Sisnando.
V
É manhan;—tenue inda a luz,
Mas ve-se que é madrugada.
Auzenda ainda acordada
Sente abrirem-lhe com tento
A porta do aposento,
E entrar...—‘Será elle?... Oh vem!
És tu, suspirado espôso?!
Disse ella em timida voz:
Não lhe responde ninguem.
Um suspiro doloroso
Lhe dissipou a illusão.
Oh! quem se hade inganar
Com aquelle suspirar!
É Adozinda,—voaram
Do maternal coração
Toda a mágoa e dissabores;
E os sentidos que ficaram
Foi para amargar as dores
Que n’aquelle ai a assaltaram.
VI
—‘Filha, filha... a ésta hora!
Que succedeu?... que tens tu?’
Callada Adozinda chora.
—‘Ai, não, não me chameis filha!’
Rompe em fim, a soluçar,
Nadando n’um mar de pranto.
Pasmo, terror, maravilha,
Susto, medo, horror, espanto
No peito da triste Auzenda
Em confusão estupenda
De tropel foram quebrar.
—Que será?—E esse tyranno
De todo o socêgo humano,
Dúvida, o monstro fatal,
Que até nos deixa a esperança
Paraque do incerto mal
Seja maior a pujança,
Venha mais fino o punhal
Quando n’alma se nos crava,
Esse do peito lhe trava,
E ao cruel padecimento
Dobra angústias e tormento.
VII
Adozinda, ajoelhada
Juncto ao leito onde convulsa
Jaz a mãe attribulada,
Do coração, que lhe pulsa
Como se fôra quebrar,
Traz d’amargo pranto um rio,
Que dos olhos vem a fio
As maternas mãos banhar;
As mãos que ella aperta e beja,
E que o pranto que gotteja
Ja não sentem derramar.
VIII
Volve a ti, mãe desgraçada,
Volve, que o morrer agora
Tammanha ventura fôra
Que da sorte despiedada
Concedido não será.
Vem ouvir tua sentença
De morte... peior que morte,
Vergonha horrorosa, offensa...
E de quem!... de teu consorte,
Do pae monstro, monstro espôso...
Ai! para o tormento odioso,
Para tammanha afflicção
Não tem fôrça o coração.
IX
Tudo lhe conta Adozinda,
Tudo... tudo,—interrompendo
A horrorosa narração
Ora as lagrymas fervendo,
Ora os soluços rompendo
Do rasgado coração,
Ora os labios descorados
De pejo e terror gelados,
Sem podêr nem balbuciar
O que é fôrça revelar.
X
—‘Irás’ disse Auzenda emfim,
E a voz, que treme, assegura:
‘Irás a teu...’—pae não disse,
E um som rouco lhe murmura
Nos labios onde a meiguice,
Onde a maternal ternura
Procuram em vão surrir:
‘Irás, filha, a Dom Sisnando
E lhe dirás que...’
—‘Senhora!’
Interrompe ella chorando
—‘Que’ torna a mãe ‘quando a hora
Da meia-noite soar,
Em teu quarto o hasde esperar.
Não temas, filha, não tremas,
Não chores, minha Adozinda,
Querida filha, não gemas,
Que hasde ser feliz ainda.
No angustiado seio
Guardemos inda a esperança:
Do ceo mandada me veio
Uma ditosa lembrança
Que nos poderá salvar.
No teu leito d’ouro fino
Sou eu que me heide ir deitar;
Tua camiza de hollanda
A meu corpo heide lançar:
E quando elle nos seus braços
Ter Adozinda julgar...
Ah! que o ceo hade abençoar
Este ingano virtuoso,
E a ser pae, a ser espôso
Dom Sisnando hade voltar.’
XI
O dia em rezas passaram
Em devotas orações;
Mas quando as trevas poisaram
Sôbre as muralhas da tôrre,
Voltaram as afflicções:
E o tempo—que leve corre
Para todos os viventes—
Só áquellas innocentes
Accintoso parecia
Que da ampulheta fadada
Bago por bago espremia
Cada hora minguada.
XII
Emfim meia-noite soa:
Dom Sisnando, aguilhoado
Do torpe amor—do peccado,
Impaciente ao prazo voa
Que elle d’amor julga dado.
Como louco, arrebatado
Corre ao leito de Adozinda,
Cego bêja a face linda,
Que decerto não é d’ella,
Mas que não é menos bella;
Ao convulso peito aperta
Aquelle peito formoso...
—Desgraçado, é tempo ainda,
Do cruel sonho desperta,
Que ao precipicio horroroso
Ja te vai a despenhar!...
XIII
Dom Sisnando é criminoso
Quanto o podia ficar;
Do intento abominoso
Nada resta a consummar.
Ja tristemente acordou
De seu delirio fatal,
E surrindo amargamente,
Á infeliz assim fallou:
—‘E era por isto... innocente!
Que tanto se recatava
Tua virtude fingida?
Ah! essa alma corrompida
Mais do que teu corpo estava.
E tu...’
—Não pôde ouvir mais
A triste mãe; não lhe soffrem
As intranhas maternais
Ouvir a filha adorada
De tal modo calumniada,
E por quem, e em que momento!
C’um suffocado lamento,
Que do peito rebentando
Trouxe aos labios alma e vida,
Quebra o silencio:—‘Ah, Sisnando!
Ah, senhor, mattae-me embora;
A desgraçada sou eu.’
E a terra n’aquella hora
Rasgada não soverteu
O infeliz, que meio morto,
No abysmo do crime absorto,
D’este golpe inesperado
A violencia cedeu!
XIV
Silencio largo, mortal
Foi a unica expressão
Que por longa duração
N’aquelle estado fatal
Entre esses dous foi ouvida.
Porêm no perdido peito
De Sisnando atribulado
Foi a vergonha vencida
Pelo irritado despeito:
Dos remorsos avexado,
Porêm mais pungido ainda
De seu crime mallogrado,
Brada em cholera abrasado:
—‘Pereça a filha descrida
Que deshonrou seu...’
—Pae não,
Pae não ousa proferir.
A palavra, suspendida
Por fria, pesada mão
De remorso insubjugado,
Lhe voltou ao coração
A lacerar-lh’o, a vingar-se
Da mal-soffrida oppressão.
XV
—‘Ouvi-me, senhor: culpada
Sou eu só...’ a triste espôsa
Lhe diz; mas não ouve nada
Aquella alma furiosa,
Ja n’este mundo rallada
De quanta pena horrorosa
No inferno está guardada
Para crimes como o seu.
XVI
Parte, corre;—o brado horrivel
Por todo o castello soa
Tam medonho como troa
Medonho trovão d’outomno.
Despertos do brando somno
Todos são:—ordens que deu
São taes, que de horror tremeu
A gente absorta e pasmada.
Tristemente obedecendo,
Co’a face ao chão inclinada
Se vão a medo, e mal crendo
Que não seja sonho vão
O que ouvindo e vendo estão.
XVII
Do castello para um lado
Uma antiga tôrre havia
Cercada de largos fossos,
Que é memoria haver fundado
Um rei mouro que vivia
Ha muito, de quando os nossos
Mourisca gente regia.
Alli uma espôsa sua,
Que elle achou ser-lhe infiel,
Sette annos e mais um dia
Fechada a teve o cruel,
Sozinha, a grilhões e nua;
E só pão sêcco lhe dava,
Mas agua não consentia
Que nunca ninguem lh’a desse
Para que á sêde morresse.
Valeu-lhe quem tudo póde,
Que ao infeliz sempre accode:
Vinha-lhe orvalho do ceo,
De que os sette annos bebeu.
E emfim o septimo anno
De tal milagre vencido
Foi o proprio rei tyranno,
Que a liberdade lhe deu,
E do crime commettido,
Se o havia, se esqueceu.
XVIII
Para ésta tôrre deserta,
No verão ao sol exposta,
Que abrasado a queima e tosta,
No rigor do hinverno aberta
A chuvas, á ventania,
Sisnando—quem tal diria!
Mandou a filhinha linda,
Que alli fechada gemesse,
A virtuosa Adozinda!...
E ai de quem agua lhe desse,
Lhe desse vestido ou cama,
Que da sêde á morte crua
—Qual o mouro a sua dama—
Alli quer que morra nua,
De todos desemparada,
De seu pae amaldiçoada,
Só da triste mãe chorada!
XIX
Sem dar somente um gemido,
Sem se carpir nem queixar,
Como a ovelhinha tremente
Que sem dar nem um balido
Se deixa á morte levar,
Vai Adozinda innocente
Para aquella feia tôrre.
Pranto que furtivo corre
De quantos olhos a viam
A acompanha tristemente.
E o pae!... Ancias que o remordem
Ninguem as sabe nem vê.
N’um aposento incerrado,
Onde nem ao mais privado
Concedido é metter pé,
Só ficou, só permanece:
Só!—antes acompanhado
De quem os seus não esquece,
Do remorso,—do peccado.
CANTIGA QUARTA
You do me wrong, to take me out o’the grave:—
Thou art a soul of bliss: but I am bound
Upon a wheel of fire, that mine own tears
Do scald like molten lead.
Shakspeare.
I
Sette annos e um dia
Foi a sentença cruel
Que Adozinda cumpriria
N’aquella tôrre fechada.
E o tyranno bem sabia
Que nem tres dias somente
Viver podia a innocente
Com a sêde, a denudez.
Uma semana é passada
Passado é um mez e outro mez,
Anno e annos decorreram;
E os sette annos feneceram
Sem que Adozinda formosa
Em tal mingua perecesse,
Sem que ao menos desmer’cesse
Em seu rosto uma só rosa.
II
Veio um dia—n’esse dia
O captiveiro acabava—
No mais alto o sol ardia
E a terra toda abrasava,
Na tôrre uma voz se ouvia,
(E é ésta a primeira vez)
Era uma voz que pedia,
Que supplicava piedade:
—‘Uma sêde, uma só d’agua,
Uma só por compaixão,
Que me abraso n’esta fragua,
Que me estalla o coração.’
III
A voz de Adozinda bella
Todos clara conheceram;
C’os olhos na alta janella
De toda a parte correram:
—‘Vive, inda vive!’ bradavam,
‘A innocente! vinde ve-la.’
E uns aos outros recontavam
Das virtudes, da paciencia
D’aquelle anjo d’innocencia
Que, ha muito, morta julgavam.
—Outra vez se torna a ouvir
O mesmo clamor sahir
Da torreada prisão:
—‘Uma sêde, uma só d’agua,
Uma só por compaixão,
Que me abraso n’esta fragua,
Que me estalla o coração!’
IV
A todos se commoveu
O mais intimo do peito,
Mas não ousam a affrontar
Do pae o sevo despeito.
—‘Tem paciencia, anjo do ceo!’
Com lagrymas responderam,
‘Que ja não póde tardar
O pae que te vem soltar.
Os sette annos decorreram,
O dia está a acabar;
Soffre mais este momento,
Que hoje acaba o teu tormento.’
V
—‘Oh! como heide eu supportar,
Amigos meus da minha alma,
Se a vida sinto acabar,
Sinto abrasar-me da calma?
Sette annos me accudiu Deus,
Que por milagre vivi,
Dava-me orvalho dos ceos,
De que sette annos bebi.
Do estio ardentes queimores
No meu corpo os não senti,
Do hinverno os frios rigores
Tambem esses não tremi.
Mas ha tres dias que a mão
Do Senhor me abandonou.
Tudo, tudo me faltou...
Oh! tende de mim piedade!
Uma sêde, uma só d’agua,
Uma só por compaixão,
Que me abraso n’esta fragua,
Que me estalla o coração!’
—De novo alto chôro ergueram,
Lastimado pranto gemem;
Mas de seu tyranno tremem,
Só a chorar se atreveram.
VI
Soa a nova no castello,
Vai correndo em derredor,
De que porfim fôra ouvido
Aquelle anjo soffredor
Soltar queixoso gemido,
Piedade emfim suppllicar.
Só a Auzenda, que expirando
No leito da morte jaz,
Para que morresse em paz
Vão a noticia occultando.
Mas soube tudo Sisnando,
E no duro coração
Ja vacilla a crueldade,
Ja vislumbra a compaixão:
Dos seccos olhos covados,
Que inspiravam medo e espanto,
Como que da mão tocados
D’algum anjo punidor,
Salta repentino o pranto,
Qual onda que estalla em flor
Sôbre o penedo ourissado.
Todo em lagrymas sanguineas
O infeliz debulhado,
Para aquella infausta tôrre
Com incerto passo corre
Em altos gritos bradando:
—‘Agua! trazei agua, vinde,
Accudi á desgraçada,
A uma filha malfadada
Que por mãos de seu pae morre!’
VII
Assim correndo e gritando
Chegava á horrivel prisão
Em que gemia Adozinda:
—‘Filha, filha, é tempo ainda;
Perdão, ó filha, perdão
Para este algoz...’—Cortou-lhe
O excesso da paixão
Lingua e fôrça; a voz quebrou-lhe,
E por morto cai no chão.
VIII
Oh! que povo se ajuntava
No castello de Landim!
E com que horror que elle olhava
Para aquelle triste fim
De tammanho cavalleiro,
Tam ricco e grande senhor,
Tam esforçado guerreiro!
A Auzenda chega o rumor
Do successo inesperado,
Dá-lhe fôrça e vida amor;
O fio meio cortado
Da existencia lhe atou.
Ei-la se ergue, e em mal-firmado
Passo corre—e lá chegou.
IX
E ja por ordem de Auzenda
Co’a porta negra e tremenda
Investem da tôrre erguida:
Range o ferro, os gonzos gemem,
Parece que ja rendida
Vai de todo;—á roda tremem,
Do fundamento aluida
A tôrre, os solidos muros.
Mas em vão de centenares
Dos mais rijos braços duros
Se movem os instrumentos
Que em muralhas mais valentes
De castellos regulares,
De mais solidos cimentos
Têem a miudo triumphado.
X
Parece incanto:—será?
O povo maravilhado
Ja por tal, tremendo, o dá.
Cessam todos, incantado
É o negro portão ferrado...
E o povo desanimado
Da impreza desiste ja.
XI
Arreda, arreda, infançoes,
Cavalleiros, dae logar,
Com licença, nobre dama,
Que ahi vem um sancto ermitão:
Com as suas orações
Este incanto hade quebrar,
Ou, se do demonio é trama,
Com o seu bento condão
Elle o hade desmanchar.
—Ei-lo chega:—este semblante
Não é aqui desconhecido...
Ésta barba, este vestido...
É elle, o mesmo ermitão
Que a noite de San’João
(Não ha dez annos ainda)
No castello pernoitou,
—Que Sisnando o maltrattou.
Mas, por a bella Adozinda
Pedir muito, lá ficou.
XII
Com a cabeça cuberta
Do seu agudo capuz,
Os olhos de côr incerta,
Pasmados, fixos... e a luz
Que d’elles sai é tam viva
Que a espaços da vista priva
Quem de perto os quer fitar!
As mãos cruzadas no peito,
Vagaroso seu andar,
Tam pesado e de tal geito
Que faz um echo tremendo
Quando os passos vai movendo,
E como que a terra e o ar,
Com o pêso vão gemendo...
—Foi seu caminho direito
Da tôrre á porta ferrada;
Sem attender a mais nada,
Sem olhar nem para Auzenda,
Que em lagrymas debulhada
Supplices mãos lh’estendia.
Chega á porta, e em voz horrenda
—‘Abre-te!’—disse. Estallou
O ferro medonhamente,
E a porta se escancarou,
—Mas elle subitamente,
Voltando-se para a turba,
Que alto alarido alevanta
E em derredor se perturba,
Com gesto que aos mais ousados
Todo o ânimo quebranta,
—‘Immudecei!’ lhes bradou.
Ficaram todos callados;
E—immudecei—revibrou
De echos em echos dobrados
Pelo castello e jardim,
Pelos soutos ao redor,
Pelos campos dilatados
Que a Dom Sisnando obedecem
E por senhor reconhecem
Ao ricco-homem de Landim.
—Depois estendendo a mão
Ao logar onde jazia
Por morto no frio chão
O desgraçado Sisnando,
Éstas palavras dizia
Que em ouco som vão soando:
—‘Eu te esconjuro,
Alma perdida,
Volta-te á vida!
‘Que o teu peccado,
Abominado
Do proprio inferno,
Só tem perdão
Com longa vida
De penitencia,
De contrição,
Que a alma perdida
Salve do inferno,
Da maldicção.
‘Eu te esconjuro,
Alma perdida,
Volta-te á vida!
‘O anjo celeste
Na hora última
Te perdoou,
E ao Pae Eterno
A tua victima
Por ti rogou
‘Lazaro immundo,
N’esta grande hora
Volve-te á vida,
Vem, surge fóra!’
XIII
Em pé está Dom Sisnando:
Vivo está, morto parece,
Tam negro veo lh’innoitece
O verde-pallido rosto,
Onde o seu sêllo ja pôsto
Tinha o archanjo da morte.
XIV
De joelhos o ermitão,
Com a cabeça cuberta,
Á porta da tôrre aberta
Faz breve e baixa oração.
Eis violento repellão
A terra, tremendo, deu,
E d’alto abaixo a muralha
Largamente se fendeu.
Viram todos claramente
O interior patente
Em que jazia Adozinda,
D’onde ha poucas horas inda
Sua voz se ouviu clamar,
E por uma sêde d’agua
Ao seu algoz supplicar.
XV
N’um leito de frescas rosas,
Que aromas do ceo recendem,
Morta Adozinda jazia:
Suas feições mais formosas,
Mais angelicas resplendem.
Uma suave harmonia
Tam brandamente soava,
Que ao coração parecia
Que por piedade o affagava
A quem saudoso gemia.
—A alva frente, não tocada
Pela mão da morte livida,
De lirios do ceo coroada
Brilhava com luz tam vivida
Que parecia toucada
De puros raios do sol.
As mãos postas sôbre o peito
Para o ceo se alevantavam,
E como que d’alma justa
Para a morada apontavam.
XVI
Oh! que vista, oh! que momento
Para a triste mãe!—Faltava
Só este último tormento.
A malfadada cuidava
Que nenhum padecimento
Para gemer lhe sobrava!
Era este.—E a dor ignora,
Não sabe o que é padecer
Quem o filhinho que adora
Não viu ainda morrer...
XVII
Levantou-se o ermitão
E bradou:—‘Ajoelhemos,
E a mão de Deus adoremos.’
—Submissa resignação
Póde a voz tolher á dor,
Não tira do coração
Seu espinho pungidor,
Que em silencio é mais cruel,
Rasga mais, e na ferida
Mais acre derrama o fel.
A paciencia soffrida
Da triste Auzenda cedeu;
Não exclamou, não gemeu,
E em tributo de respeito
Sua mágoa fechou no peito.
XVIII
E Sisnando?—O desgraçado
No pó da terra humilhado,
Só se lhe conhece a vida
Na agitação comprimida
Do convulso soluçar.
XIX
Para a ermida do castello
Emfim o corpo levaram
E n’um cofre d’ouro fino
Como reliquia o guardaram.
—Muito a não carpiu Auzenda,
Que a morte compadecida
Cedo a libertou da vida.
Porêm a longa existencia
De remorso e penitencia
Sisnando foi condemnado:
Cuberto de horror e opprobrio
Cumpriu seu mesquinho fado;
Onde?—Ninguem mais o soube.
Do castello aquella noite
Com o ermitão se sumiu;
Nunca mais d’elle se ouviu.
Mas á meia-noite em ponto
Na capella de Landim
Se ficou sempre escutando
Gemer uma voz medonha,
Que pede perdão bradando:
E essa voz diziam todos
Que era a voz de Dom Sisnando.
II
BERNAL-FRANCEZ
Este romance é tirado de uma das mais conhecidas e provavelmente mais antigas xácaras que o povo canta. Sua contextura simples mas forte, a scena tão dramatica com que abre, o fexo sublime com que termina dão-lhe todos os characteres de poesia primitiva e grande de um povo heroico, de uma gente que tomava as coisas da vida ao serio, como a nossa era. Estou que é originariamente portuguez: não apparece em nenhum dos romanceiros castelhanos, nem na vasta collecção de Ochoa.—O texto, como o conservou a tradição oral dos povos, da-lo-hei no logar competente, segundo lh’o talhei no prefacio d’este volume[12], e demandava o systema da minha compilação: e ahi se vejam as conjecturas que tenho feito sôbre ésta preciosa reliquia da nossa poesia popular.
Mr. Southey, o famoso poeta e historiador inglez, tendo lido a Adozinda e o Bernal, quando os publiquei a primeira vez em Londres em 1828, escrevia ao meu amigo Mr. Adamson, o biographo de Camões: ‘que estes eram dois monumentos de mais remota antiguidade talvez do que nenhumas d’aquellas canções irlandezas que elle até alli tivera na conta de serem os vestigios mais antigos de toda a poesia popular das nações do oeste da Europa.’
Communicando-me ésta reflexão, tam lisongeira para um collector enthusiasta de antigualhas, mandou-me o Sr. Adamson a traducção ingleza que pela primeira vez agora sai impressa, e o leitor achará logo adeante do texto portuguez[13].
No verão de 1840, quando apromptei para a presente edição ésta parte do volume, dediquei o Bernal-Francez a uma joven senhora que juntava a outras admiraveis qualidades a de possuir, no mais eminente grau que ainda incontrei, o sentimento do bello, do grande, do verdadeiro nas artes. Este romancinho era o seu valído d’entre todas as minhas escreveduras poeticas: consagrei-lh’o... Hoje é um monumento! bem pobre e mesquinho para memoria de tanta saudade!
Todavia o seu desejo e impenho era que eu fizesse uma verdadeira epopea, e me deixasse d’estas coisas que nunca podiam passar de bonitinhas. A perda de D. Sebastião em Africa era o assumpto que me dava: dizia—e dizia bem—que devia ser o reverso da medalha dos Lusiadas, e que podia ser o mais popular e nacional de todos os poemas portuguezes depois d’aquelle. Ponho isto aqui para commentario dos versos que se seguem, e que alias não seriam intendidos.
15 de Outubro de 1842.