A ADELIA

Tu queres, amiga, que eu deixe

Minha harpa no chopo do monte,

Que nem sempre me chore e queixe,

Que seja poeta... a cantar!

Que da brava inculta deveza

Me não fique pasmado á fonte

A admirar só a natureza,

Sem um brado de glória alçar!

Na escarpada selvatica brenha

Não se colhem senão rudes flores,

Bem o sei—crescem-lhe hirtas na grenha,

São singellas

De fôlha e de côres,

Não se toucam as bellas

Com ellas:

Não se infeitem jardins de formosas

Com musquetas bravias e rosas!

—‘Vê o nobre, magnifico traço[14]

Do regrado edificio de Homero,

Do mavioso Virgilio, do Tasso!

(Dizes tu, maga musa d’amor)

‘E ora terno e mavioso, ora fero,

Ja sublime, ja doce—o cantor

De Ignez bella, feio Adamastor.

Como erguendo, campea, a alta frente

Sôbre todos os vates do Pindo!’

—Vejo, oh! vejo, que ésta alma ardente

Ja nos voos andou seguindo

Essas aguias mais remontadas...

Hoje é abelha, ahi anda zumbindo

Por entre agras, singellas flores

Desalinhadas:

Mas são flores que nascem na serra

Onde todo o seu mundo se incerra,

Porque ahi tem—o seu bem—seus amores.

Bemfica, 12 de maio de 1840.