BERNAL-FRANCEZ
I
Ao mar se foi D. Ramiro,
Galé formosa levava;
Seu pendão terror dos Mouros
N’alta poppa tremolava.
Oh que adeus na despedida!
De saudades vai rallado;
Com tantos annos de amores,
Não tem um de desposado.
Nem ha dama em toda a Hespanha
Tam bella como é Violante;
Não a houvera egual no mundo
Se ella fôra mais constante.
Bate o mar na barbacan
Do castello alevantado,
Só a vela[15] na alta tôrre
Não cede ao somno pesado.
Tudo o mais repousa e dorme,
Tudo é silencio ao redor;
Dobra o recato nas portas
Com a ausencia do senhor.
Mas a certa hora da noite
Se vê luz n’uma setteira,
E logo cruzar por perto
Leve barca aventureira.
Muitas noites que passaram,
Manso esteja ou bravo o mar,
A mesma luz, á mesma hora,
A mesma barca a passar.
E isto ignora o bom Rodrigo,
Que tam fiel prometteu
De guardar a seu senhor
Juramento que lhe deu?
Sabera, não sabera:
Mas a c’ravella ligeira,
Que aopé da torre varada
Jazia alli na ribeira.
Uma noite escura e feia
Na praia menos se achou...
Quem n’ella foi não se sabe,
Mas onde foi não tornou.
E o farol que no alto luz
Á mesma hora a brilhar...
Só a barca aventureira
Não foi vista hoje passar.
E d’um lado aopé da rocha
Havia um falso postigo:
Só o sabem D. Ramiro,
Violante e o fiel Rodrigo.
Mas alta noite, horas mortas,
Gente que o postigo entrava,
E á porta de Violante
Manso bater se escutava.
—‘Quem bate á minha porta,
Quem bate, oh! quem ’stá ahi?
—’Sou Bernal-francez, senhora,
Vossa porta a amor abri.’
Ao descer do leito d’oiro
A fina hollanda rasgou,
Ao abrir mansinho a porta
A luz que se lhe apagou:
Pela mão tremente o toma,
Ao seu apposento o guia:
—‘Como treme, amor querido,
Esta mão, como está fria!’
E com osculos ardentes
E no seio palpitante,
Que lhe aquece as frias mãos
A namorada Violante.
—‘De longe vens?’—‘De mui longe.’
—‘Bravo estava o mar!’—‘Tremendo.’
—‘Armado vens!’—Não responde.
Vai-lhe as armas desprendendo.
Em pura essencia de rosas
O amado corpo banhou,
E em seu leito regallado
A par de si o deitou.
—‘Meia noite ja é dada
Sem para mim te voltares,
Que tens tu, querido amante,
Que me incobres teus pezares!
‘Se temes de meus irmãos,
Elles não virão aqui;
Se de meu cunhado temes,
Não é homem para ti.
‘Meus criados e vassallos
Por essa tôrre a dormir,
Nem de nosso amor suspeitam,
Nem o podem descubrir.
‘Se de meu marido temes,
A longes terras andou:
Por lá o detenham Mouros,
Saudades ca não deixou.’
—‘Eu não temo os teus criados,
Meus criados tambem são:
Irmãos nem cunhado temo,
São meus cunhados e irmão.
‘De teu marido não temo
Nem tenho de que temer...
Aqui está aopé de ti,
Tu é que deves tremer.’
II
E o sol ja no oriente erguido
Da tôrre ameias dourava;
Violante mais bella que elle
Para a morte caminhava:
Alva tella aspera e dura
Veste o corpo delicado,
Por cintura rijo esparto
Em grosseiro laço atado.
Choram pagens e donzellas,
Que a piedade o crime esquece;
O proprio offendido espôso
Com tal vista se internece.
Dá signal a campa triste,
O algoz o cutello affia...
—‘Meu senhor mereço a morte’
A malfadada dizia,
‘De joelhos, D. Ramiro,
Humilde perdão vos peço,
Perdoae-me por piedade...
A morte não, que a mereço:
‘Da affronta que vos hei feito
Por minha triste cegueira,
Dae-me quitação co’a morte
N’ésta hora derradeira:
‘Mas só eu sou criminosa
Do aggravo que vos fiz,
Não tireis, senhor, vingança
D’esse misero, infeliz...’
Talvez ia perdoar-lhe
O espôso compadecido...
Renovou-se-lhe o odio todo,
D’aquelle rôgo offendido:
O semblante roxo d’ira
Para não vê-la torceu,
E co’ a esquerda mão alçada
O fatal accêno deu.
Sôbre o collo crystallino,
Desmaiado, e inda tam bello,
De golpe tremendo e subito
Cai o terrivel cutello.
III
Oh! que procissão que sai
Da antiga porta da tôrre!
Que gente que acode a vê-la,
Que povo que triste corre!
Tochas de pallida cera
Nas trevas da noite escura
Vão dando luz baça e triste,
Luz que guia á sepultura:
Cubertos com seus capuzes
Rezam frades ao-redor,
A dobrar desintoados
Os sinos causam terror...
Duas noites são passadas,
Já não ha luz na setteira,
Mas passando e repassando
Anda a barca aventureira.
Linda barca tam ligeira
Que nenhum mar soçobrou,
O farol que te guiava,
Ja não luz, ja se apagou.
A tua linda Violante,
O teu incanto tam bello,
Teve por ti feia morte,
Crua morte de cutello.
Na egreja de San’Gil
Ouves a campa a dobrar?
Ves essas tochas ao longe?
Ella que vai a interrar.
Ja se fez o interramento,
Ja cahiu a louza fria,
Só na egreja solitaria
Um cavalleiro se via;
Vestido de dó tam negro,
E mais negro o coração,
Sôbre a fresca sepultura
De rôjo se atira ao chão:
—‘Abre-te, ó campa sagrada,
Abre-te a um infeliz!...
Seremos na morte unidos,
Ja que em vida o ceu não quiz.
‘Abre-te, ó campa sagrada
Que escondes tal formosura,
Esconde tambem meu crime
Com a sua desventura.
‘Vida que eu viver não quero,
Vida que eu só tinha n’ella,
Recebe-a, ó campa sagrada,
Que não posso já soffrê-la.’
E o pranto de correr,
E os soluços de estallar,
E a mão que leva á espada
Para alli se traspassar.
Mas a mão gelou no punho
Voz que da campa se erguia,
Voz que ainda é suave e doce,
Mas tam medonha e tam fria,
Do sepulchro tão cortada,
Que as carnes lhe arripia
E a vida deixou parada:
—‘Vive, vive, cavalleiro,
Vive tu, que eu ja vivi;
Morte que me deu meu crime,
Fui eu só que a mereci.
‘Ai n’este gêlo da campa,
Onde tudo é frio horror,
Só da existencia conservo
Meu remorso e meu amor!
‘Braços com que te abraçava
Ja não teem vigor em si;
Cobre a terra humida e dura
Os olhos com que te vi;
‘Bôcca com que te bejava
Ja não tem sabor em si;
Coração com que te amava...
Ai! só n’esse não morri!
‘Vive, vive, cavalleiro,
Vive, vive e sê ditoso;
E apprende em meu triste fado
A ser pae e a ser espôso.
‘Donzella com quem casares
Chama-lhe tambem Violante;
Não amará mais do que eu...
Mas—que seja mais constante!
‘Filhas que d’ella tiveres
Ensina-as melhor que a mim,
Que se não percam por homens
Como eu me perdi por ti.’