ALBANINHA

—‘Albaninha, Albaninha,

A filha do conde Alvar!

Oh! quem te vira Albaninha

Tres horas a meu mandar!’

—‘Pouco tempo são tres horas,

Mas vem depois o contar.’

—‘Usança de maus villões

Nunca a eu soubera usar.

Com ésta espada me cortem,

Com outra de mais cortar,

Donzella que em mim se fie

Se eu d’isso me for gabar.’

Inda bem manhan não era

Ja na praça a passeiar;

Aos tres irmãos de Albaninha

Se foi de braço travar:

—‘Ésta noite, cavalleiros,

Sabereis que fui caçar;

Em minha vida não tive

Noite de tanto folgar.

Era uma lebre tam fina

Que nunca vi tal saltar:

Com tres horas de corrida

Não a cheguei a cançar!’

Disseram uns para os outros:

—‘Bom modo de se gabar!

Será de nossas mulheres?

Das irmans nos quer fallar?’

Responde agora o mais môço

Discreto no seu pensar:

—‘Não vêdes que é de Albaninha,

Que o traidor quer diffamar?’

Foram-se os tres para um canto,

Poseram-se a aconselhar;

Diziam os dois mais velhos:

—‘Vamo’-lo nós a mattar?’

E o mais moço respondia:

—‘Vamo’-la nós a casar?’

—‘Sim! e o dote que ella tem,

Nós o temos de pagar.’

Vão ao quarto de Albaninha,

De voda a foram achar;

Duas aias a vestiam,

Duas a estão a toucar.

—‘Albaninha, Albaninha,

A filha do conde Alvar!

As barbas de teu pae conde

Que bem lh’as soubeste honrar!’

—‘As barbas de meu pae conde

Trattae vós de as honrar,

Pagando-me ja meu dote,

Que agora me vou casar.’


XX
A PEREGRINA

Não é dos que mais se cantam, nem tem a popularidade de outros muitos, o romance da ‘Peregrina’ que alguns tambem chamam da ‘Princeza’.—A licção que principalmente segui veio-me do Porto, e é a mais completa. Das outras provincias só obtive fragmentos muito interpolados. Comtudo approveitei bastante d’elles para restituir o texto e dar nexo e clareza á narrativa. O que se não utilisou para este fim, vai nas variantes.

O final, sublime e poetica idea que tanta predilecção mereceu aos antigos menestreis, é o mesmo de outros romances. Ja notei[14] que francezes e inglezes o usaram em suas composições. Entre nós apparece repetido muitas vezes. Fez-se um ‘logar commum’ romantico assim como tantas coisas bellas dos poetas gregos e latinos se fizeram, por sua popularidade, logares communs classicos. Que Homero ou que Virgilio da meia-edade foi o original inventor d’este? Não é possivel sabê-lo. E sabemos nós se eguaes bellezas da Iliada ou da Eneada são ou não repettições, reminiscencias de outros poetas mais antigos cujas obras ou cujos nomes não chegaram até nós?

A ‘Peregrina’ tem todos os characteres de antiga e original. É bella e simples e verdadeira. Nos romanceiros castelhanos não vem; nem se incontra nada parecido com a singella historia que ingenuamente narra. Mas d’estas historias houve tantas n’aquelles ditosos tempos da andante cavallaria! Mal haja o damninho talento de Cervantes que as fez acabar n’um Dom Quixote e na sua Dulcinea!