A PEREGRINA
Peregrina, a peregrina[15]
Andava a peregrinar
Em cata de um cavalleiro
Que lhe fugiu, mal pezar!
A um castello torreado
Pela tarde foi parar:
Signaes certos, que trazia
Do castello, foi achar.
—‘Mora aqui o cavalleiro[16]?
Aqui deve de morar.’
Respondêra-lhe uma dona
Discreta no seu fallar:
—‘O cavalleiro está fóra,
Mas não deve de tardar.
Se tem pressa a peregrina,
Ja lh’o mandarei chamar.’
Palavras não eram dittas,
O cavalleiro a chegar:
—‘Que fazeis porqui, senhora[17],
Quem vos trouxe a este logar?’
—‘O amor de um cavalleiro
Por aqui me faz andar.
Prometteu de voltar cedo,
Nunca mais o vi tornar;
Deixei meu pae, minha casa[18],
Corri por terra e por mar
Em busca do cavalleiro,
Sem nunca o podêr achar.’
—‘Negro fadairo, senhora,
Que tarde vos fez chegar!
Eu de vosso pae fugia
Que me queria mattar;
Corri terras, passei máres,
A este castello vim dar.
Antes que fôsse anno e dia
(Vós me fizestes jurar)
Com outra dama ou donzella
Não me havia desposar.
Anno e dia eram passados
Sem de vós ouvir fallar,
Co’a dona d’esse castello
Eu hontem me fui casar...’
Palavras não eram dittas,
A peregrina a expirar.
—‘Ai penas de minha vida,
Ai vida de meu penar!
Que farei d’esta lindeza
Que em meus braços vem finar?’
Do alto de sua tôrre
A dama estava a raivar:
—‘Levá-la d’ahi, cavalleiro[19],
E que a deitem ao mar.’
—‘Tal não farei eu, senhora,
Que ella é de sangue real...
E amou com tanto extremo
A quem lhe foi desleal.
Oh! quem não sabe ser firme,
Melhor fôra não amar.’
Palavras não eram dittas
O cavalleiro a expirar.
Manda a dona do castello[20]
Que os vão logo interrar
Em duas covas bem fundas
Alli junto á beira-mar.
Na campa do cavalleiro
Nasce um triste pinheiral[21],
E na campa da princesa
Um saudoso canavial.
Manda a dona do castello
Todas as canas cortar;
Mas as canas das raizes
Tornavam a rebentar:
E á noite a castellana[22]
As ouvia suspirar.
XXI
DOM JOÃO
O assumpto d’este romance é um casamento á hora da morte, uma d’aquellas tardias mas solemnes reparações que a religião, a honra, o amor tantas vezes têem arrancado á consciencia do moribundo.
Os preconceitos de nascimento luctam, poderosos ainda n’esse momento extremo, com os deveres da religião, com os sentimentos d’alma, com os mesmos dictames da verdadeira honra. Oiro é a primeira coisa que o fidalgo expirante se lembra de deixar á infeliz donzella,—infelix virgo!—em compensação da sua honra perdida. ‘Mil cruzados’ lhe deixa: falta ahi villão que a queira, burguez que a requeste e cubra de seu nome vulgar a doirada fragilidade de uma menina tam bem dotada por seu senhor e seductor?
‘Mil cruzados não é nada’: lhe objectam.—‘Pois darei mais duzentos’: regateia a suberba agonizante.—‘A honra não se paga aos cruzados.’—‘Pois, terras, villas, senhorios e castellos a quem casar com ella. Ha tanto escudeiro e cavalleiro pobre! Casar com a manceba de seu senhor, e senhor tam generoso, quem hade recusá-lo? E para o que duvidasse... argumento de rei velho e de republicano novo: Tenha a cabeça cortada!’
Forte é o orgulho que assim lucta, quando ja na beira do sepulchro. Tenaz o preconceito que ainda agora fez mentir villanmente o cavalleiro pundonoroso, quando, n’uma derradeira esperança de vida, falsamente promettia á inganada donzella ‘as bençãos de um arcebispo e a estolla da sancta egreja’. Vivesse elle, e taes promessas se cumpririam tanto como as primeiras que a seduziram. Porêm mais forte é a piedade, a honra verdadeira de quem, até o último, combate esse vão orgulho, esse falso pundonor. Era sua mãe; não a mãe da desgraçada, que o não ousaria se viva era—que por ventura foi morrer de vergonha a um canto.—Não, mas sua propria mãe d’elle, do moribundo. Verdadeira mulher de alma e de coração, tudo o mais lhe esquece e despreza, e não vê na infeliz, que alli está debulhada em lagrymas junto ao leito da agonia, senão uma mulher; uma mulher que é victima de seu amor, que tudo quanto era deu a quem tudo lhe quer pagar com tam pouco.
A mulher triumphou. As últimas palavras do vencido são bellas:
—‘Pois fique ésta mão ja fria
Na ma mão adorada.
De Dom João é viuva,
Condessa será chamada.’
Estes grandes quadros desenhados em poucos traços, vivos só de verdade e natureza, são—não me canço de o fazer notar—os que dão á poesia do romance este vigor que se não acha n’outras, este character que a distingue em todas as nações, em todas as linguas.
Mais adeantada civilização trará poetas que inluminem, que repintem a côres estes simples desenhos a lapis do menestrel. Mas crear não hãode elles nunca, se não fecharem os livros escriptos, para abrirem o do coração, para estudar por elle o homem, a natureza que o cria, e o Deus que o fez.
O presente romance veio-me do Minho; variantes notaveis não me appareceram; nas collecções castelhanas não está; e não o creio—isto é, não o presinto mais antigo do que o seculo XV ou principios do XVI.