DOM JOÃO

Lá das bandas de Castella

Triste nova era chegada:

Dom João que vem doente,

Mal pezar de sua amada!

São chamados tres doutores

Dos que têem mais nomeada:

Que, se algum lhe désse vida

Teria paga avultada.

Chegaram os dois mais novos,

Dizem que não era nada;

Porfim que chega o mais velho,

Diz com voz desinganada:

—‘Tendes tres horas de vida,

E uma está meia passada;

Essa é para o testamento:

Deixar a alma incommendada!

A outra é para os sacramentos,

Que inda é mais bem impregada.

Na terceira as despedidas

Da vossa dama adorada.’

Estando n’estas conversas,

Dona Isabel que é chegada.

Ergueu os olhos para ella

Com a vista ja turvada:

—‘Ainda bem que vieste,

Minha prenda desejada,

Que tanto queria ver-te

N’esta hora minguada!’

—‘Tenho fe na Virgem sancta,

N’ella venho confiada,

Que me hade ouvir e salvar-te,

Que o teu mal não será nada.’

—‘Oh! que se eu chegar a erguer-me,

Minha rosa namorada,

No vaso d’este meu peito

P’ra sempre serás plantada,

Co’as bençaos de um arcebispo

E de agua benta regada,

Co’a estolla da sancta egreja

Ao meu coração atada.’

Estando n’estas conversas,

Sua mãe que era chegada:

—‘Que tens tu, filho querido

D’esta alma amargurada?’

—‘Tenho, mãe, que estou morrendo,

Que ésta vida está acabada;

Com só tres horas por minhas,

E uma ja meio passada.’

—‘Filho de minhas intranhas,

N’esta hora minguada

Lembra-te se algo deves

A alguma dama honrada.’

—‘Minha mãe, que devo, devo...

E Deus me não peça nada!

Dona Isabel que em má hora

Por mim fica diffamada.

Mas deixo-lhe mil cruzados

Para que seja casada.’

—‘A honra não se paga, filho;

Mil cruzados não é nada.’

—‘Ja lhe deixo mais duzentos

E a cruz de minha espada.’

—‘A honra não se paga, filho;

Os cruzados não são nada.’

—‘Deixo-a a estes tres doutores

Muito bem incommendada;

E a vós, minha mãe, vos peço

Que a tenhais bem guardada.

O que com ella casar

Tem uma villa ganhada;

O que lhe disser que não

Tenha a cabeça cortada,’

—‘A honra não se paga, filho;

Nem com terras é comprada:

Se a essa dama lhe queres,

Não a deixes deshonrada!’

-—‘Pois fique esta mão ja fria

Na sua mão adorada:

De D. João é viuva,

Condessa será chamada.’


XXII
HELENA

Se a Dona Izabel da xácara antecedente achou na mãe do seu amante todas as divinas compaixões de um coração feminino, Helena, a boa Helena d’este romance, não incontrou na mãe de seu marido senão a proverbial ‘sogra’ de todos os rifões e dittados de todos os povos. Inredadora, invejosa, má-lingua, sogra emfim, sogra extreme, e puro sangue—como em stylo cigano do Jockey-club, manda a moda anglo-galla que hoje se diga—a sogra excita com dicterios e mentiras a bruteza estupida de seu filho: faz com que elle vá arrancar da cama, e trazer de noite para sua detestavel casa, a infeliz mulher que, sentindo-se com dôres de parto, tinha ido para a de sua mãe buscar o aninho e confôrto que juncto da odiosa sogra não podia achar. Cego de cholera e despeito, o bruto a nada attende. É a morte que lhe dá; bem o sabe, mas pouco lhe importa. A resignação angelica da victima, as suas despedidas ao filhinho recem-nascido, as deixas de seu testamento quando se sente finar nas desabridas alturas ‘d’aquella serra’ por onde a levam n’aquelle cavallo andaluz que ‘anda mais que o luar’—tudo são bellezas de primeira ordem, poesia de coração verdade.

Obtive este romance em Maio de 1843 de uma saloia velha das vizinhanças de Lisboa. Outra licção veio depois, da Beiralta, que não differe muito. Sempre noto porêm alguma variante, pôstoque ellas valham pouco. Parece-me portuguez de nascença; não ha d’elle vestigio em collecção castelhana de que eu saiba.