AVALOR

Pela ribeira de um rio

Que leva as aguas ao mar,

Vai o triste de Avalor,

Não sabe se hade tornar.

As aguas levam seu bem,

Elle leva o seu pesar;

E so vai, sem companhia,

Que os seus fôra elle leixar;[118]

Ca quem não leva descanço

Descança em so caminhar.

Descontra d’onde ia a barca,

Se ia o sol a baixar;

Indo-se abaixando o sol,

Escurecia-se o ar;

Tudo se fazia triste

Quanto havia de ficar.

Da barca levantam remos,

E ao som do remar

Começaram os remeiros

Da barca este cantar:

—‘Que frias eram as aguas!

Quem as haverá de passar?’

Dos outros barcos respondem:

—‘Quem as haverá de passar?’

Frias são as aguas, frias,

Ninguem n’as póde passar;

Senão quem pôs a vontade

Donde a não póde tirar.[119]

Tra’la barca lhe vão olhos

Quanto o dia dá logar:

Não durou muito, que o bem

Não póde muito durar.

Vendo o sol pôsto contr’elle[120],

Não teve mais que pensar;

Soltou redeas ao cavallo

Á beira do rio a andar.

A noite era callada

Pera mais o magoar,

Que ao compasso dos remos

Era o seu suspirar.

Querer contar suas mágoas

Seria areias contar;

Quanto mais ia alongando,

Se ia alongando o soar.

Dos seus ouvidos aos olhos

A tristeza foi egualar;

Assi como ia a cavallo

Foi pela agua dentro entrar.

E dando um longo suspiro

Ouvia longe fallar:

Onde mágoas levam olhos,

Vão tambem corpo levar.

Mas indo assi por acêrto,

Foi c’um barco n’agua dar

Que estava amarrado á terra,

E seu dono era a folgar.

Saltou assi como ia, dentro,

E foi a amarra cortar:

A corrente e a maré

Acertaram-n’o a ajudar.

Não sabem mais que foi d’elle,

Nem novas se podem achar:

Suspeitaram que foi morto,

Mas não é pera affirmar:

Que o imbarcou ventura,

Pera so isso aguardar.

Mas mais são as mágoas do mar

Do que se podem curar.


XXXIII
CUIDADO E DESEJO

Todo este soláo—e creio que propriamente este é tambem um verdadeiro soláo—todo elle é alegorico dos mysteriosos amores do ‘poeta das saudades.’

Bernardim-Ribeiro vaga triste e solitario pelas margens de um rio escuro e cuberto de arvoredo. Apparece-lhe o seu Cuidado na figura de um velho incannecido que lhe mostra o seu fatal Desejo todo cuberto de dó; chorando e pensativo declara-lhe que em má hora o viu porque nunca mais o hade esquecer. Some-se a visão; e elle caminha rio abaixo, até dar ‘antre uns medonhos penedos’ (se será Cintra?) onde a Phantasia lhe apresenta sua triste Lembrança na figura de uma bella mulher de ‘loiros cabellos e olhos verdes,’ cuberta de um negro manto. É Beatriz que elle ama, que o adora e que não póde ser sua! Escura noite lhe esconde a visão bemaventurada; e de um ‘alto oiteiro’ lhe bradam (porque não dos Alpes, do Piemonte onde lh’a tinham levado?)—‘Bernardim-Ribeiro, olha onde estás.’

Da demasiada altura onde subiram, seus atrevidos pensamentos lhe fazem recordar quam baixo o tinha pôsto a sorte para se atrever a tanto.—O namorado trovador cerra os olhos para nunca mais os abrir. Que lhe resta a elle que ver o mundo?

Este romance seria feito ao ordenar-se o casamento da infanta com o duque de Saboia? Não vem inserto nas SAUDADES, como o antecedente, da Ama, e o subsequente de Avalor: por isso aqui pôs claro o seu nome de Bernardim-Ribeiro, que no mysterioso livro de cavallarias, ora se disfarça em anagrammas de suas proprias lettras, ora sob as de outros se desfigura, para confundir e inredar a todo o que não tivesse a chave do querido segredo. O nome porêm da infanta nem aqui, nem em parte nenhuma o expôs a ser deciphrado pela mais remota inducção. N’este romance não ha nomes femininos; os que se incontram em tudo quanto escreveu, assim podem ser Maria, Antonia, como Joanna, etc. Em nenhum ha lettras ou sons que se pareçam com os de Beatriz.

Nada digo do stylo, é o mesmo da peça precedente. As bellezas são infinitas; nenhum poeta portuguez escreveu tanto com o sangue de seu coração.