CUIDADO E DESEJO
Ao longo de uma ribeira
Que vai pelo pé da serra,
Aonde me a mi fez a guerra
Muito tempo o grande amor,
Me levou a minha dor:
Ja era tarde do dia,
E a agua d’ella corria
Por antre um alto arvoredo,
Onde ás vezes ia quedo
O rio, e ás vezes não.
Entrada era do verão,
Quando começam as aves
Com seus cantares suaves
Fazer tudo gracioso.
Ao ruido saudoso
Das aguas cantavam ellas:
Todalas minhas querellas
Se me puseram deante;
Alli morrer quizera ante
Que ver por onde passei.
Mas eu que digo—passei!
Antes inda heide passar,
Em quanto hi houver pezar,
Que sempre o hi hade haver.
As aguas, que de correr
Não cessavam um momento,
Me trouxera’ ao pensamento
Que assim eram minhas mágoas,
D’onde sempre correm aguas
Por estes olhos mesquinhos,
Que têem abertos caminhos
Pelo meio do meu rosto.
E ja não tenho outro gôsto
Na grande desdita minha.
O que eu cuidava que tinha
Foi-se-me assim não sei como,
D’onde eu certa crença tómo
Que, para me leixar, veio.
Mas, tendo-me assi alheio
De mi o que alli cuidava,
Da banda d’onde agua estava
Vi um homem todo cam[121],
Que lhe dava pelo cham
A barba e o cabello.
Ficando eu pasmado d’ello,
Olhando elle para mi,
Fallou-me e disse-me assi:
—Tambem vai ésta agua ao Tejo.’
N’isto olhei, vi meu Desejo
Estar de trás triste e só,
Todo cuberto de dó,
Chorando sem dizer nada,
A cara em sangue lavada,
Na bôcca posta ũa mão,
Como que a grande paixão,
Sua falla lhe tolhia.
E o velho que tudo via,
Vendo-me tambem chorar
Começou a assi fallar:
—‘Eu mesmo são[122] teu Cuidado
Que n’outra terra criado,
N’esta primeiro nasci.
E ess’outro que está aqui
É o teu Desejo triste;
Que má hora o tu viste
Pois nunca te esquecerá!
A terra e mar passará
Traspassando a mágoa a ti’
Quando lhe eu aquisto ouvi,
Soltei suspiros ao chôro;
Alli clarante o fôro
Meus olhos tristes pagaram
De um bem só que elles olharam,
Que outro nunca mais tiveram.
Nem o tive, nem m’o deram,
Nem o esperei somente:
De só ver fui tam contente,
Que pera mais esperar
Nunca me deram logar.
E n’aquisto, triste estando
Com os olhos tristes olhando
D’aquellas bandas d’alêm,
Olhei e não vi ninguem.
Dei então a caminhar
Rio abaixo, até chegar
A cêrca de Montemór.
Com meus males de redor,
Da banda do meio-dia,
Alli minha Phantasia,
D’antre uns medrosos penedos,
Onde aves que fazem medos
De noite os dias vão ter,
Me sahiu a receber
Com ũa mulher pelo braço,
Que, ao parecer de cansaço
Não podia ter-se em si,
Dizendo:—‘Vês, triste, aqui
A triste Lembrança tua.’
Minha vista então na sua
Pus, d’ella todo me enchi:
A prima coisa que vi
E a derradeira tambem,
Que no mundo vão e vem!
Seus olhos verdes rasgados
De lagrymas carregados,
Logo em vendo-os, pareciam
Que de lagrymas enchiam
Contino as suas faces,
Que eram, gran’ tempo, paces[123]
Antre mi e meus cuidados.
Loiros cabellos ondados
Um negro manto cubria:
Na tristeza parecia
Que lhe convinha morrer.
Os seus olhos de me ver,
Como furtados, tirou,
Depois em cheio me olhou.
Seus alvos peitos rasgando
Em voz alta se aqueixando,
Disse assi mui só sentida:
—‘Pois que mor dor ha na vida
Para que houve ahi morrer?’
Callou-se sem mais dizer.
Eu de mi gemidos dando,
Fui-me para ella chorando
Para a haver de consolar...
N’isto pôs-se o sol ao mar,
E feze-se noite escura,
E disse mal á ventura
E á vida, que não morri...
E muito longe d’alli,
Ouvi de um alto oiteiro
Chamar:—‘Bernardim-Ribeiro!’
E dizer:—‘olha onde estás!’
Olhei de ante e de traz
E vi tudo escuridão,
Cerrei meus olhos então,
E nunca mais os abri,
Que depois que a perdi
Nunca vi tam grande bem.
Porêm inda mal, porêm!
XXXIV
O CORDÃO DE OIRO
Não parece ésta uma d’aquellas verdes anecdotas que a prosa de Bocacio e os versos de Lafontaine immortalizaram? O stylo é menos licencioso, porque, sincera e nua ás vezes, comtudo é sempre mais casta a poesia primitiva. O seu pudor é o da ingenuidade que se despe porque mal não pensa, não o da hypocrisia que por maliciosa se cobre. Comtudo os dois ultimos versos são um verdadeiro remate de epigramma que faria honra a um poeta da eschola de Voltaire, e podia ser feixo de uma cantiga de vaudeville de Scribe. Entre portuguezes, só D. Francisco Manuel de Mello ou Nicolau Tolentino os faria tam naturaes e tam picantes ao mesmo tempo.
Assim a adivinhar, que é o unico modo de entrar n’estes pontos, orço a data d’esta composição pelos tempos da guerra da acclamação, isto é, por meados do seculo XVII.
É ommisso nos romanceiros dos nossos vizinhos; e em Portugal não tenho noticia de que se incontre senão na tradição oral de Tras-os-Montes, onde achei tres cópias d’elle, uma mais completa que as outras: d’ellas se appurou o presente texto. As variantes quasi todas despreziveis.