O CORDÃO DE OIRO

Lá se vai o capitão

C’os seus soldados á guerra:

Duzentos eram quintados,

Eram duzentos de leva[124].

Se todos elles vão tristes,

Um mais que todos o era;

Baixa trás a sua espada,

Seus olhos postos em terra.

Lá no meio do caminho

O capitão lhe dissera:

—‘Porque vais triste, soldado,

Essa paixão por quem era?’

—‘Não é por pae nem por mãe,

Nem por irman que eu tivera[125],

É pela espôsa que deixo

Lá tam só na minha terra.

Este cordão de oiro fino,

Que sette arrateis bem pésa,

Mais me pésa a mim levá-lo,

Que ao partir lh’o não dera!’

—‘Soldado, tens sette dias

Para que voltes a vê-la.

Se a incontrares chorando,

Ficas sette annos com ella:

Senão, nem mais uma hora

Terás de aguardo ou de espera.’

Quem saltava de contente

O meu soldadito era.

Deixou estrada direita,

Por atalhos se mettêra;

Inda não é meia-noite,

Á sua porta batêra.

—‘Quem bate á minha porta;

Quem bate com tanta pressa?’

—‘É um soldado, senhora,

Que vos trás novas da guerra.’

—‘Mal haja a nova que trás,

E mais quem veio trazê-la!

Ergue-te tu, minha vida,

Assoma-te a essa janella;

Despede-me esse soldado

Que a tam má hora aqui chega.’

—‘Amigo, vindes errado

Co’as vossas novas da guerra:

Deixae-nos dormir em paz,

Que bem precisamos d’ella.’

Foi-se d’alli o soldado

Mais prompto do que viera:

—‘Bem haja o meu capitão

Pelo bem que me fizera!

Com sette dias de aguardo...

Nem sette horas carecêra

Para me quitar saudades,

Livrar-me de toda a pena!

Tomae lá meu capitão

Os mimos da minha terra;

Este cordão de oiro fino,

Que agora inda mais me pésa.

Minha mulher não precisa,

Que os primos podem mantê-la.’

—‘Pois tua mulher tem primos,

E tu vinhas com dó d’ella!...’


XXXV
O CEGO

Ha duas balladas escriptas em dialecto escocez por elrei James V de Escocia, que ambas se parecem muito com ésta. Uma especialmente, ‘The Gaberlunzie man,’ até no metro e nas fórmas exteriores dá bastantes ares da nossa xácara. Começa assim:

The pauky auld carle come ovir the lee

Wi’ mony good-eens and days to mee,

Saying: Goodwife, for zour courtesie,

Will ze lodge a silly poor man?[126]

O rei James, que morreu de trinta e tres annos, em 13 de Dezembro de 1542, era um joven rei, tunante e maganão, que se disfarçava em trajos de mendigo, de adello, ou que taes, para andar correndo baixas aventuras pelas aldeas ou pelos bairros escusos das cidades. Cantor de seus proprios feitos, celebrava-os depois em gallantes trovas, a que não falta a graça nem o chiste do genero. A que se intitula The Jolly Beggar, e que por licenciosa e fresca de mais, a não admittiu o bispo Percy na sua collecção, talvez tenha ainda mais merito de arte.

O Gaberlunzie man da real ballada é porêm todo inteiro o Cego da nossa xácara, menos em certos incidentes que são mais poeticos e mais interessantes na composição portugueza.

Disfarçado em trajos de cego mendigo, um senhor de alta jerarchia fallou de amores a uma donzella de muito inferior nascimento que vivia com sua velha mãe. Por accôrdo, mais ou menos expresso entre os dois amantes, se appresenta este por noite á porta da velha com sua caramunha. A mãe dorme; e Anninhas, que responde ao cego, parece fazê-lo ou com ironia ou em pique de ciumes, e por nenhum modo lhe quer abrir ‘porta ou postigo.’

Põe-se o cego a cantar lamentosamente a soa desgraça; e com a chorada cantilena se abranda ou finge abrandar-se o coração da rapariga. Desperta a mãe para que o venha ouvir; e quando ésta condoida lhe manda dar esmola, o cego recusa, não quer senão que o ponham no caminho que perdeu. É a propria velha, coitada, a que diz á filha que lh’o va insinar. E assim fogem os dois, com a maior tranquilidade com que ainda fugiram amantes.

Note porêm a maestria do nosso poeta popular. A fugitiva sustenta sempre aquella tam perdoavel hypocrisia feminina, último protesto do pudor moribundo. Fiando homericamente na sua roca, vai fingindo guiar o cego, vai parecendo acreditar que não sabe aonde nem a que vai. Senão quando, apparece um tropel de cavalleiros: é a comitiva do nosso rei incuberto, principe ou conde pelo menos. Adeus gaivão de cego, e andrajos de mendigo! A cavallo e trotar largo! Ja o cego vê, ja a donzella sabe onde vai. E com este seu fino e malicioso ditto, conclue a trova:

Um cego me leva, e vejo o caminho!

Tal é o argumento da cantiga portugueza muito mais romanesco do que o das escocezas, pôsto que seja o mesmo o fundo da anecdota.

Não duvido suppor que talvez de Glasgow ou de Aberdeen trouxessem os nossos mareantes ésta historia, e de Vianna ou do Porto se internasse pelo Minho onde ella é mais vulgar. Não lh’o pagariamos so em vinho e frutta aos nossos amigos do norte, porque em mercadorias d’aquelle mesmo genero para lá temos exportado bastante.

A forma métrica é a do romance de Sancta Iria. O texto foi restituido com difficuldade, porque ésta fórma se presta ainda mais á corrupção do que a outra, desafiando o prolifico talento dos nossos trovadores de aldea a bordar seus pretenciosos floripondios sôbre a singela telagarsa do original.

Vão por ementa, appontadas algumas variantes menos absurdas.