VIAGENS NA MINHA TERRA.
Qu' il est glorieux d'ouvrir une nouvelle carrière, et de paraitre tout-à-coup dans le monde savant un livre de découvertes à la main, comme une cométe inattendue étincelle dans l'espace!
x. de maistre.
CAPITULO I.
De como o auctor d'este erudito livro se resolveu a viajar na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu immortalizar-se escrevendo éstas suas viagens. Parte para Santarem. Chega ao Terreiro-do-Paço, imbarca no vapor de Villa-Nova; e o que ahi lhe succede. A Deducção-Chronologica e a Baixa de Lisboa. Lord Byron e um bom charuto. Travam-se de razões os Ilhavos e os Bordas-d'agua: os da calça larga levam a melhor.
CAPITULO II.
Declaram-se typicas, symbolicas e mythicas éstas viagens. Faz o A. modestamente o seu proprio elogio. Da marcha da civilização; e mostra-se como ella é dirigida pelo cavalleiro da Mancha D. Quixote, e por seu escudeiro Sancho Pança.—Chegada a Villa-Nova-da-Rainha, Supplicio de Tantalo.—A virtude galardão de si mesma; e sophisma de Jeremias Bentham.—Azambuja.
CAPITULO III.
Acha-se desappontado o leitor com a prosaica sinceridade do A. d'estas viagens. O que devia ser uma estalagem nas nossas eras de litteratura romantica?—Suspende-se o exame d'esta grave questão para tractar, em prosa e verso, um mui difficil ponto de economia-politica e de moral social.—Quantas almas é preciso dar ao diabo, e quantos corpos se teem de intregar no cemiterio para fazer um ricco n'este mundo.—Como se veio a descobrir que a sciencia d'este seculo era uma grandessissima tola.—Rei de facto, e rei de direito.—Belleza e mentira não cabem n'um sacco.—Põe-se o A. a caminho para o pinhal da Azambuja.
Eu coroarei de trevo a minha espada,
De cenoiras, luzerna e betarrava,
Para cantar Harmódios e Aristógilons,
Que do tyranno jugo vos livraram
Da sciencia velha, inutil carunchosa,
Que elevava da terra, erguia, alçava
O que no homem ha de Ser divino,
E para os grandes feitos e virtudes
Lhe despegava o espirito da carne...
There are more things in heaven and earth, Horatio,
Than are dreamt of in your philosophy.
Rien n'est beau que le vrai.
CAPITULO IV.
De como o A. foi pensando e divagando, e em que pensava e divagava elle, no caminho da villa da Azambuja até o famoso pinhal do mesmo nome.—Do poeta grego e philosopho Démades, e do poeta e philosopho inglez Addison, da casaca de penneiros e do palio atheniense, e de outros importantes assumptos em que o A. quiz mostrar a sua profunda erudição.—Discute-se a materia gravissima se é necessario que um ministro d'estado seja ignorante e leigarraz.—Admiraveis reflexões de zigzag em que se tracta de re politica e de re amatoria.—Descobre-se porfim que o A. estivera a sonhar em todo este capitulo, e pede-se ao leitor benevolo que volte a folha e passe ao seguinte.
Aid ôs te kalle ka aretês polis,
Prôtoê sgathis hamartia deuteron de ais chunê
Da belleza e virtude é a cidadella
A innocencia primeiro—e depois ella.
CAPITULO V.
Chega o A. ao pinhal da Azambuja, e não o acha. Trabalha-se por explicar este phenomeno pasmoso. Bello rasgo de stylo romantico.—Receita para fazer litteratura original com pouco trabalho.—Transição classica: Orpheu e o bosque do Ménalo.—Desce o A. d'estas grandes e sublimes considerações para as realidades materiaes da vida: é desamparado pela hospitaleira traquitana e tem de cavalgar na triste mula de arrieiro.—Admiravel choito do animal. Memorias do marquez do F. que adorava o choito.
CAPITULO VI.
Próva-se como o velho Camões não teve outro remedio senão misturar o maravilhoso da mythologia com o do christianismo.—Da-se razão, e tira-se depois, ao padre José Agostinho.—No meio d'estas disceptações academico-litterarias vem o A. a descobrir que para tudo é preciso ter fé n'este mundo. Diz-se n'este mundo, porque, quanto ao outro ja era sabido.—Os Lusíadas, Fausto e a Divina-Comedia.—Desgraça do Camões em ter nascido antes do romantismo.—Mostra-se como a Styge e o Cocyto sempre são melhores sitios que o Inferno e o Purgatorio.—Vai o A. em procura do marquez de Pombal, e dá com elle nas ilhas Beatas do poeta Alceu.—Partida de Whist entre os illustres finados.—Compaixão do marquez pelos pobres homens de Ricardo Smith e J. B. Say.—Resposta d'elle e da sua luneta ás perguntas peralvilhas do A.—Chegada a este mundo e ao Cartaxo.
O falso deus adora o verdadeiro!
Camões, grande Camões, quam similhante
Acho teu fado ao meu quando os cotejo!
CAPITULO VII.
Reflexões importantes sôbre o Bois-de-Boulogne, as carruagens de mollas, Tortoni, e o café do Cartaxo.—Dos cafés em geral, e de como são o characteristico da civilização de um paiz.—O Alfageme.—Hecatombe involuntaria immolada pelo A.—Historia do Cartaxo.—Demonstra-se como a Gran'-Bretanha deveu sempre toda a sua fôrça e toda a sua glória a Portugal.—Shakspeare e Laffitte, Milton e Chateaumargot, Nelson e o principe de Joinville.—Próva-se evidentemente que M. Guizot é a ruina de Albion e do Cartaxo.
CAPITULO VIII.
Sahida do Cartaxo—A charneca. Perigo imminente em que o A. se acha de dar em poeta e fazer versos.—Ultima revista do imperador D. Pedro ao exército liberal.—Batalha de Almoster.—Waterloo.—Declara o A. solemnemente que não é philosopho e chega á ponte da Asseca.
CAPITULO IX.
Prolegomenos dramatico-litterarios, que muito naturalmente levam, apezar de alguns rodeios, ao retrospecto e reconsideração do capitulo antecedente.—Livros que não deviam ter titulo, e titulos que não deviam ter livro.—Dos poetas d'este seculo. Bonaparte, Rotchild e Silvio-Péllico.—Chega-se ao fim d'estas reflexões e á ponte da Asseca.—Traducção portugueza de um grande poeta.—Origem de um dictado.—Junot na ponte da Asseca.—De como o A. d'este livro foi jacobino desde pequeno.—Inguiço que lhe deram.—A duqueza de Abrantes.—Chega-se emfim ao val de Santarem.
CAPITULO X.
Valle de Santarem—Namora-se o A. de uma janella que ve por entre umas árvores.—Conjecturas várias a respeito da ditta janella.—Similhança do poeta com a mulher namorada, e inquestionavel inferioridade do homem que não é poeta.—Os rouxinoes. Reminiscencia de Bernardim Ribeiro e das suas saudades.—De como o A. tinha quasi completo o seu romance, menos um vestido branco e uns olhos pretos.—Sahem verdes os olhos com grande admiração e pasmo seu.—Verificam-se as conjecturas sôbre a mysteriosa janella.—A menina dos rouxinoes.—Censura das damas muito para temer, crítica dos elegantes muito para rir.—Começa o primeiro episodio d'esta Odyssea.
CAPITULO XI.
Tracta-se do unico privilegio dos poetas que tambem os philosophos quizeram tirar, mas não lhes foi concedido; aos romancistas sim.—Exemplo de Aristoteles e Anacreonte.—O A., tendo declarado no capitulo nono d'esta obra que não era philosopho, agora confessa, quasi solemnemente, que é poeta, e pretende manter-se, como tal, em seu direito.—De como S. M. elrei de Dinamarca tinha menos juizo do que Yorick, seu bobo.—Doutrina d'este. Funda n'ella o A. o seu admiravel systema de physiologia e pathologia transcendente do coração. Por uma deducção appertada e cerrada da mais constrangente logica vem a dar-se no motivo porque foi concedido aos poetas o direito indefinido de andarem sempre namorados.—Applicam-se todas éstas grandes theorias á posição actual do A. no momento de entrar no episodio promettido no capitulo antecedente.—Modestia e reserva delicada o obrigam a duvidar da sua qualificação para o desimpenho: pede votos ás amaveis leitoras. Decide-se que a votação não seja nominal, e porquê.—Dido e a mana Annica.—Entra-se emfim na prometida historia.—De como a velha estava á porta a dobar, e imbaraçando-se-lhe a meada, chamou por Joaninha, sua neta.
Reconheço o queimar da chamma antiga,
Agnosco veteris vestigia flammae;
CAPITULO XII.
De como Joanninha desimbaraçou a meada da avó, e do mais que aconteceu.—Que casta de rapariga era Joanninha.—Dá o A. insigne próva de ingenuidade e boa fe confessando um grave senão do seu Ideal. Insiste porém que é um adoravel deffeito.—Em que se parece uma mulher desannellada com um Sansão tosquiado.—Pasmosas monstruosidades da natureza que desmentem o credo velho dos peralvilhos.—Os olhos verdes de Joanninha.—Religião dos olhos pretos strenuamente professada pelo A. Perigo em que ella se acha á vista de uns olhos verdes.—De como estando a avó e a neta a conversar muito de mano a mano, chega Frei Diniz e se interrompe a conversação.—Quem era Frei Diniz.
CAPITULO XIII.
Dos frades em geral.—O frade moralmente considerado, socialmente e artisticamente.—Próva-se que é muito mais poetico o frade do que o barão.—Outra vez D. Quixote e Sancho-Pansa.—Do que seja o barão, sua classificação e descripção linneana.—Historia do castello do Chucherumello.—Erro palmar de Eugenio Sue: mostra-se que os jesuitas não são a cholera-morbus, e que é preciso refazer o 'Judeu errante'—De como o frade não intendeu o nosso seculo nem o nosso seculo ao frade.—De como o barão ficou em logar do frade, e do muito que n'isso perdémos.—Unica voz que se ouve no actual deserto da sociedade: os barões a gritar contos de reis.—Como se contam e como se pagam os taes contos.—Predilecção artistica do A. pelo frade: confessa-se e explica-se ésta predilecção.
CAPITULO XIV.
Emendado emfim de suas distracções e divagações, prosegue o A. direitamente com a historia promettida.—De como Fr. Diniz deu a manga a beijar á avó e á neta, e do mais que entre elles se passou.—Ralha o frade com a velha, e começa a descobrir-se onde a historia vai ter.
CAPITULO XV.
Retratto de um frade franciscano que não foi para o depósito da Terra-sancta, nem consta que esteja na Academia das Bellas-artes.—Ve-se que a logica de Fr. Diniz se não parecia nada com a de Condillac.—Suas opiniões sôbre o liberalismo e os liberaes.—Que o podêr vem de Deus, mas como e paraquê.—Que os liberaes não intendem o que é liberdade e egualdade; e o para que eram os frades, se fossem.—Próva-se, pelo texto, que o homem não vive so de pão, e pergunta-se o de que vivia então Fr. Diniz.
CAPITULO XVI.
Saibâmos da vida do frade.—Era franciscano porquê?—Dos antigos e dos novos martyres.—Alguns particulares de Fr. Diniz antes e depois de ser frade.—Emigração.—Explicação incompleta.—De como a velha tinha perdido a vista e Joanninha o riso.—Sexta feira dia aziago.
CAPITULO XVII.
De como, chegando outra sexta-feira e estando a avó e a neta á espera do frade, este lhe appareceu, contra o seu costume, da banda de Lisboa.—Porque razão muitas vezes a mais animada conversação é a que mais facilmente pára e quebra derepente.—Nova demonstração de dous grandes axiomas dos nossos velhos, a saber: Que o hábito não faz o monge; e que ralhando as commadres, se descobrem as verdades.—No ralhar da velha com o frade, levanta-se uma ponta do veo que cobre os mysterios da nossa historia.
CAPITULO XVIII.
Descobre-se que ha grandes e espantosos segredos entre o frade e a velha.—Piedosa fraude de Joanninha.—Lucta entre o hábito e o monge.
CAPITULO XIX.
Guerra de postos avançados. Joanninha no bivac—De como os rouxinoes do valle se disciplinaram a ponto de tocar a alvorada e a retreta.—Quem era a 'menina dos rouxinoes,' e porque lhe poseram este nome.—A sentinella perdida e achada.
CAPITULO XX.
Joanninha adormecida—O [demi-jour] da coquette.—Poesia do Flos-sanctorum*.—De como os rouxinoes acompanhavam sempre a menina do seu nome; e do bem que um d'elles cantava no bivac.—Retratto esquissado á pressa para satisfazer ás amaveis leitoras.—Pondera-se o triste e pessimo gôsto dos nossos governantes em tirarem as honras militares ao mais elegante e mais nacional uniforme do exército portuguez.—Em que se parece o auctor da presente obra com um pintor da edade-média.—De como os abraços, por mais apertados que sejam, e os beijos, por mais interminaveis que pareçam, sempre teem de acabar porfim.
CAPITULO XXI.
Quem vem lá?—Como entre dous litigantes nem sempre gosa o terceiro.—Carlos e Joanninha n'uma especie de situação ordeira, a mais perigosa e falsa das situações.
CAPITULO XXII.
Bilhete de manhan da prima ao primo. Inganam a pobre da velha.—Noite mal dormida.—Da conversa que teve Carlos com os seus botões.—A Joanninha que elle deixára e a Joanninha que achou.—Obrigações d'amor, triste palavra.—A mulher que elle amava, e se elle a amava ainda.—Quesitos do A. aos seus benevolos leitores. Declara que com os hypocritas não falla.—Quem hade levantar a primeira pedra?—Dous modos differentes de accudir uma coisa ao pensamento.
CAPITULO XXIII.
Continúa a accudir muita coisa vaga e incontrada ao pensamento de Carlos.—Dança de fadas e duendes.—Fr. Diniz o fado-mau da familia.—Veremos, é a grande resolução nas grandes difficuldades.—Carlos poeta romantico.—Olhos verdes.—Desafio a todos os poetas moyen-ages do nosso tempo.
CAPITULO XXIV.
Novo Génesis.—O Adam social muito differente do Adam natural.—Carlos sempre um por seus bons instinctos, sempre outro por suas más reflexões.—De como Joanninha recebeu o primo com os braços abertos, e do mais que entre elles se passou.—Dor meia dor, meia prazer.
CAPITULO XXV.
O excesso da felicidade que aterra e confunde tambem.—Pasmosa contradicção da nossa natureza.—De como os olhos verdes de Joanninha se inturvaram e perderam todo o brilho.—Que o coração da mulher que ama, sempre adivinha certo.