VIAGENS NA MINHA TERRA.
CAPITULO XXVI.
Modo de ler os auctores antigos, e os modernos tambem.—Horacio na sacra-via.—Duarte Nunes iconoclasta da nossa historia.—A policia e os barcos de vapor.—Os vandalos do feliz systema que nos rege.—Shakspeare lido em Inglaterra a um bom fogo, com um copo de old-sack sôbre a banca.—Sir John Falstaff se foi maior homem que Sancho-Pansa?—Grande e importante descuberta archeologica sôbre San'Thiago, San'Jorge e Sir John Falstaff.—Próva-se a vinda d'este último a Portugal.—O enthusiasta britannico no tumulo de Heloisa e Abeillard no Pere-la-Chaise.—Bentham e Camões.—Chega o auctor á sua janella, e pasmosa miragem poetica produzida por umas oitavas dos Lusiadas.—De como emfim proseguem éstas viagens para Santarem, e que feito será de Joanninha.
Ibam forte sacra via, sicut meus [est mos],
Nescio quid meditans nugarum...
E ja no porto da inclita Ulyssea...
CAPITULO XXVII.
Chegada a Santarem.—Olivaes de Santarem.—Fóra-de-Villa.—Symetria que não é para os olhos.—Modo de medir os versos da biblia.—Architectura pedante do seculo XVII.—Entrada na Alcáçova.
CAPITULO XXVIII.
Depois de muito procurar acha emfim o auctor a egreja de Sancta-Maria d'Alcaçova.—Stylo da architectura nacional perdido.—O terremoto de 1755, o marquez de Pombal e o chafariz do Passeio-publico de Lisboa.—O chefe do partido progressista portuguez no alcassar de D. Affonso Henriques.—Deliciosa vista dos arredores de Santarem observada de uma janella da Alcaçova, de manhan.—É tomado o auctor de ideas vagas, poeticas, phantasticas como um sonho.—Introducção do Fausto.—Difficuldade de traduzir os versos germanicos nos nossos dialectos romanos.
Resurgis outra vez, vagas figuras,
Vacillantes imagens que á turbada
Vista accudieis d'antes. E heide agora
Retter-vos firme? Sinto eu ainda
O coração propenso a illusões d'essas?
E appertais tanto!... Pois embora! seja:
Dominae, ja que em nevoa e vapor leve
Emtôrno a mim surgis. Sinto o meu seio
Juvenilmente trépido agitar-se
Co'a maga exhalação que vos circunda.
Trazeis-me a imagem de ditosos dias,
E d'ahi se ergue muita sombra amada:
Como um velho cantar meio-esquecido,
Véem os primeiros simplices amores
E a amizade com elles. Reverdece
A mágoa, lamentando o errado curso
Dos labyrintos da perdida vida;
E me está nomeando os que trahidos
Em horas bellas por fallaz ventura
Antes de mim na estrada se sumiram.
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CAPITULO XXIX.
Doçuras da vida.—Imaginação e sentimento.—Poetas que morreram moços e poetas que morreram velhos.—Como são escriptas éstas viagens.—Livro de pedra. Criança que brinca com elle.—Ruinas e reparações.—Idea fixa do A. em coisas d'arte e litterarias.—Sancta Iria ou Irene, e Santarem.—Romance de Sancta Iria.—Quantas sanctas ha em Portugal d'este nome?
Stando eu á janella co'a minha almofada,
Minha agulha d'ouro, meu dedal de prata;
Passa um cavalleiro, pedia pousada;
Meu pae lh'a negou: quanto me custava!
—'Ja vem vindo a noite, é tam so a estrada...
Senhor pae, não digam tal da nossa casa,
Que a um cavalleiro que pede pousada
Se fecha ésta porta á noite cerrada.'
Roguei e pedi—muito lhe pezava!
Mas eu tanto fiz que porfim deixava.
Fui-lhe abrir a porta, mui contente entrava;
Ao lar o levei, logo se assentava.
Ás mãos lhe dei agua, elle se lavava;
Puz-lhe uma toalha, n'ella me limpava.
Poucas as pallavras, que mal me fallava,
Mas eu bem sentia que elle me mirava.
Fui a erguer os olhos, mal os levantava,
Os seus lindos olhos na terra os pregava.
Fui-lhe pôr a cea, muito bem ceava;
A cama lhe fiz, n'ella se deitava.
Dei-lhe as boas noites, não me replicava:
Tam má cortezia nunca a vi usada!
Lá por meia noite que me eu suffocava,
Sinto que me levam co'a bôcca tapada...
Levam-me a cavallo, levam-me abraçada,
Correndo, correndo sempre á desfilada.
Sem abrir os olhos, vi quem me roubava;
Callei-me e chorei—elle não fallava.
D'alli muito longe que me perguntava
Eu na minha terra como me chamava.
—'Chamavam-me Iria, Iria a fidalga;
Por aqui agora Iria, a cansada.'[3]
Andando, andando, toda a noite andava;
Lá por madrugada que me attentava...
Horas esquecidas commigo luctava;
Nem fôrça nem rogos, tudo lhe mancava.
Tirou do alfange... alli me matava,
Abriu uma cova onde me interrava.
No fim de sette annos passa o cavalleiro,
Uma linda ermida viu n'aquelle outeiro.
—'Minha Sancta Iria, meu amor primeiro,
Se me perdoares, serei teu romeiro.'
—'Perdoar não te heide, ladrão carniceiro,
Que me degollaste que nem um cordeiro.'
CAPITULO XXX.
Historia de Sancta Iria segundo os chronistas e segundo o romance popular.
CAPITULO XXXI.
Quommodo sedet sola civitas.—Santarem.—Portugal em verso e Portugal em prosa.—Exquisito lavor de umas portas e janellas de architectura mosarabe.—Busto de D. Affonso Henriques.—As salgadeiras de Affrica.—Porta do Sol.—Muralhas de Santarem.—Voltemos á historia de Fr. Diniz e da menina dos olhos verdes.
CAPITULO XXXII.
Tornámos á historia de Joanninha.—Preparativos de guerra.—A morte.—Carlos ferido e prisioneiro.—O hospital.—O infermeiro.—Georgina.
CAPITULO XXXIII.
Carlos e Georgina. Explicação.—Ja te não amo! palavra terrivel.—Que o amor verdadeiro não é cego.—Frade no caso outra vez. Ecce iterum Crispinus; ca está o nosso Fr. Diniz comnosco.
CAPITULO XXXIV.
Carlos, Georgina e Fr. Diniz.—A peripecia do drama.—
CAPITULO XXXV.
Reunião de toda a familia.—Explicação dos mysterios.—O coração da mulher.—Parricidio.—Carlos beija emfim a mão a Fr. Diniz e abraça a pobre da avó.
CAPITULO XXXVI.
Que não se acabou a historia de Joanninha.—Processo ao coração de Carlos.—Immoralidade.—Defeito de organização não é immoralidade.—[Horror], horror, maldicção!—Um barão que não pertence á familia lineana dos barões propriamente dittos—Porta de Atamarma.—Senatus consulto santareno.—Nossa Senhora da Victoria afforada.—Threnos sôbre Santarem.
CAPITULO XXXVII.
A Graça e sua bella fachada gothica.—Sepultura de Pedr'alvares Cabral.—Outro barão que não é dos assignalados.—Egreja do Sancto-milagre.—Bellos medalhões mosarabes.—De como, chegando o prior e o juiz, houve o A. vista do Sancto-milagre, e com que solemnidades.—Monumento da muito alta e poderosa princeza a infanta D. Maria da Assumpção.—Casa onde succedeu o milagre, convertida em capella de stylo philipino.—O homem das botas, e o que tem elle que haver com o Sancto-milagre de Santarem.—Admiravel e graciosa esperteza da regencia do Rocio.—Aaroun-el-Arraschid: e theoria dos governos folgasões; os melhores governos possiveis.—Volta o paladio scalabitano de Lisboa para Santarem.
Que, sem passar além da Taprobana,
No velho Portugal edificaram
Novo reino que tanto sublimaram.
CAPITULO XXXVIII.
Jantar nos reaes paços de Affonso Henriques.—Sautés e salmis.—Desce o A. á Ribeira de Santarem em busca da tenda do Alfageme.—A espada do Condestavel.—Desappontamento.—O salão elegante. Dissipam-se as ideas archeologicas. Os fosseis.—Tudo melhor quando visto de longe.—O baile público.—Soirée de piano obrigado.—Theatro. Desafinações da prima-dona. Syphlis incuravel das traducções. Destempêro dos originaes.—A xácara de rigor, o subterraneo e o cemiterio.—Sublime gallimathias do ridiculo.—A bella e necessaria palavra 'gallimathias.'—Se as saudades matam.—Perigo de applicar o scalpello ou a lente ao mais perfeito das coisas humanas.—De como a logica é a mais perniciosa de todas as incoherencias.
CAPITULO XXXIX.
Processo de scepticismo em que está o auctor.—Moralistas de requiem.—O maior sonho d'esta vida, a logica.—Differença do poeta ao philosopho.—O coração de Horacio.—O collegio de Santarem.—Jesuitas e templarios.—O alliado natural dos reis.—'Ficar na gazeta' phrase muito mais exacta hoje do que 'Ficar no tinteiro.'—San'Frei Gil e o Doutor Fausto.—De como o A. foi ao tumulo do sancto bruxo e o achou vazio.—Quem o roubaria?
Solutus omni foenore!
Vixere fortes ante Agamemnona multi.
CAPITULO XL.
As Claras.—Aventura nocturna.—Se as freiras mettem medo aos liberaes?—O Psalmo.—Tres frades.—Práctica do franciscano.—O corpo de San' Fr. Gil.—Que se hade fazer das freiras?—Mal do govêrno que deixar comer mais aos barões.
CAPITULO XLI.
O roubador do corpo do sancto descuberto pela arguta perspicacia do leitor benevolo.—Grande lacuna na nossa historia.—Porque se não preenche?—Página preta na historia de Tristam Shandy.—Novellas e romances, livros insignificantes.—O adro de San'Francisco e as suas acacias.—Que será feito de Joanninha?—O peito da mulher do norte.—Vamos embora: ja me infada Santarem e as suas ruinas.—A corneta do soldado e a trombeta do juizo final.—Eheu, Portugal, eheu!
CAPITULO XLII.
Protesto do auctor.—Desaffinação dos nervos.—O que é preciso para que as ruinas sejam solemnes e sublimes.—Que Deus está no Colliseu assím como em San'Pedro.—Quer-se o auctor ir embora de Santarem.—Como, sem ver o tumulo d'elrei D. Fernando?—Em que estado se acha este.—Exemplar de stylo byzantino.—Coroa real sôbre a caveira.—O rei d'espadas e o symbolo do imperio.—Quem nunca viu o rei cuida que é de oiro.—Brutalidades da soldadesca n'um tumulo real.—O que se acha nas sepulturas dos reis.—A phrenologia.—Vindicta publica, tardia mas ultrajante.—Camões e Duarte Pacheco.—A sombra falsa da religião.—Regimen dos barões e da materia.—A prosa e a poesia do povo.—Synthese e analyse.—O senso íntimo.—Se o auctor é demagogo ou Jesuita?—Jesu Christo e os barões.
Oh! que não sei de nôjo como o conte!
CAPITULO XLIII.
Partida de Santarem.—Pinacotheca.—Impaciencia e saudades.—Sexta-feira.—Martyrio obscuro.—A figura do peccado.—Estamos no valle outra vez.—Evocação de incanto.—A irman Francisca e Fr. Diniz.—A teia de Penelope.—E Joanninha?—Joanninha está no ceo.—A mulher morta a dobar esperando que a interrem.—A esperança, virtude do christianismo.—Uma carta.
CAPITULO XLIV.
Carta de Carlos a Joanninha.
Evora-monte...
de maio de 1834.
CAPITULO XLV.
Carta de Carlos a Joanninha: continúa.
CAPITULO XLVI.
Carta de Carlos a Joanninha: continúa.
CAPITULO XLVII.
Carta de Carlos a Joanninha: continúa.
CAPITULO XLVIII.
Carta de Carlos a Joanninha: continúa.
Pelo mundo em pedaços repartido;
CAPITULO XLIX.
De como Carlos se fez barão.—Fim da historia de Joanninha.—Georgina abbadessa.—Juizo de Fr. Diniz sôbre a questão dos frades e dos barões.—Que não póde tornar a ser o que foi, mas muito menos póde ser o que é. O que hade ser, Deus o sabe e proverá.—Vai o A. dormir ao Cartaxo.—Sonho que ahi tem.—Volta a Lisboa.—Caminhos de ferro e de papel.—Conclusão da viagem e d'este livro.