6.

Quando El-Rei D. Sebastião quiz[584] fazer[585] a jornada de Africa, determinou avistar-se em N. Senhora de Guadalupe com El-Rei Philippe seu tio[586]; para se ajustar[587] esta funcção[588] veio[589] de Castella o duque[590] d’Alva, cavalheiro mui soberbo[591], e pouco affeiçoado aos Portuguezes, e de cá foi o conde[592] de Redondo. Entre a pratica[593] que tiverão, lhe perguntou[594] o duque que fidalgos vinhão com El-Rei Dom Sebastião; porque com El-Rei vinha elle, e outros como elle. Respondeo-lhe o conde: “Com El-Rei meu senhor vem o duque de Bragança, o de Aveiro, e o marquez[595] de Villa-Real; e fidalgos razos[596], como eu e vós, vem muitos.”

7.

Pedindo[597] um pobre[598] esmola[599] a Philippe II. lhe dizia que se lembrasse erão irmãos; e perguntando-lhe El-Rei por que quarte, respondeo por Adão. Mandou[600]-lhe El-Rei dar um real. Replicou[601] o pobre que aquella esmola não era d’um irmão Rei. “Se a todos os meus irmãos”, disse Philippe, “eu désse outro tanto[602], já não teria[603] real que dar.”

8.

Christovão Colon foi o primeiro que com audaz[604] fortaleza[605] navegou o oceano, o descobrio[606] as Indias de Castella; pelo que mereceo que os Reis Catholicos o fizessem duque de Beraguas. Estava uma noite[607] ceando[608] com outros cavalheiros seus amigos; e dizendo-lhe um que aquella façanha a poderia obrar qualquer outro, se lhe dessem o socorro[609], que fosse necessario, dissimulou Christovão Colon, e tirando um ovo[610] do prato, perguntou aos demais fidalgos se poderia algum fazer que aquelle ovo estivesse levantado[611], sem que se arrimasse[612] a cousa alguma? Respondêrão todos, que não podia ser[613]. Pegou[614] no ovo Christovão Colon, e dando com elle mansamente[615] na mesa[616], lhe fez uma pequena[617] móssa[618], e o póz muito direito. Rírão-se[619] todos, e disse Colon: “Nenhum[620] de Vossas Mercês[621] ha que não acha facil navegar o oceano, depois que eu de lá vim; porém he certo, que se eu não fôra o primeiro, nenhum seria o segundo.”

9.

Um Mahometano consultando a Aischeh mulher de Mahometo, lhe pedio uma regra[622] para bem viver; e ella lhe respondeo: “Reconhece[623] um só Deos, refrêa[624] a tua lingua, reprime[625] as tuas paixões[626], adquire sciencia, vive constante na tua religião, abstem-te de fazer mal[627], frequenta os bons, encobre[628] os defeitos do teu proximo[629], soccorre[630] os pobres, e espera a eternidade por recompensa.”

10.

Querendo certo homem desquitar-se[631] de sua mulher, com quem tinha pouca paz[632], appareceo[633] para este fim[634] diante[635] do Provisor. Estranhou[636] elle a proposta[637], porque conhecia a mulher, e era de boas qualidades: “Porque quereis deixar[638] vossa mulher?” (lhe perguntou o Provisor): “Não he virtuosa?”—“Sim, senhor”; respondeo o homem.—“Não he rica?”—“Sim, senhor.” Emfim[639] a todas as cousas, sobre que era perguntado, respondia em abono seu. Com que lhe disse o Provisor: “Pois se vossa mulher tem tantas cousas boas, porque quereis desquitar-vos della?” A isto o homem, descalçando[640] um sapato[641], perguntou ao Provisor: “Senhor, este sapato não he novo?”—“Sim”, respondeo o Provisor. Accrescentou[642]: “não está bem feito[643]?”—“Sim, ao que parece”, respondeo o Provisor.—“Não he de bom cordavão, e de boa sola?”—Respondeo do mesmo modo que sim. “Pois vê Vossa Mercê com tudo isso[644]” (disse o descontente marido[645]), “pois eu quero tirar este sapato, e calçar outro, porque eu sei muito bem aonde[646] me aperta[647], e faz mancar[648], e Vossa Mercê não o sabe.”