11.
Botocudos.
Estes Indios dominão[649] na cordilheira[650] habitada[651] por seus maiores[652] os Aimorés, de cuja[653] barbaridade ainda guardão sementes. Quando os Portuguezes começárão[654] a povoar[655] o Brazil tiverão de guerrear com os ferozes[656] Aimorés, a quem dizem[657] que derão[658] o nome de Botocudos, de boto, e codea[659], por isso que os Indios desta nação[660] erão rolhos, e trazião[661] o corpo[662] coberto d’uma codea de gomma[663] copal com que se pintavão[664] para se preservarem das ferretoadas[665] dos mosquitos e outros insectos. Os Botocudos são mais brancos[666] que a maior parte dos demais[667] Indios do Brazil, porém, como seus ascendentes os Aimorés, costumão[668] pintar a cara[669] e mais partes do corpo. Dividem-se em varias tribus ou cabildas[670], cada[671] uma com seu cabo[672], que tem um poder[673] absoluto sobre os seus[674] em os negocios de maior importancia como são a caça[675], a guerra[676] e a escolha[677] de uma nova morada[678]; mas na aldea[679] limita-se toda a sua autoridade a compôr as desavenças que são entre elles mui frequentes. Este lugar não he hereditario, escolhe-se para elle o mais bravo, e por vezes[680] o mais atrevido[681] se proclama por chefe da tribu, sobre tudo se por ventura o que os commandava vem a morrer. Os Botocudos tem as espadoas[682] largas, o pescoço[683] curto, o nariz[684] chato, as maçãas[685] do rosto proeminentes, os pés[686] pequenos, as extremidades inferiores delgadas[687], mas nervosas. Furão as orelhas[688], e o beiço inferior[689], e enfião no buraco[690] uma rodella de páo[691]. São vingativos[692] e traidores[693], posto que tinhão um exterior alegre e um ar[694] de franqueza. Não tem especie alguma de culto; considerão[695] o sol[696] como uma divindade a que chamão[697], e reverenceão ainda mais a lua[698], quando com sua luz os protege em suas excursões nocturnas. Amão e imitão as ceremonias religiosas dos christãos, quanto isto póde compadecer-se com a vida nomada que fazem, assim que são de todos os Indios os que mais custão a civilizar-se.
12.
As grutas[699] do inferno[700].
Deo-se[701] este nome ás cavernas naturaes que se achão[702] na montanha em que estão assentadas a povoação e fortaleza[703] da Nova-Coimbra, na provincia de Mato-Grosso e sobre a margem direita[704] do Paraguai. No vertente[705] septentrional[706] da montanha existe uma abertura que dá passo[707] a duas especies de antecamaras, 1 de braça[708] e meia de comprido[709], e 1 de largo[710], e outra algum tanto maior. Desce-se para ellas por uma ladeira que tem obra de 20 braças de comprimento[711], guarnecida de estalactitas, que provêm da filtração continua da abobada. No cabo[712] da ladeira entra-se n’uma salla parecida com uma mesquita[713], de cuja abobada pendem estalactitas de differentes fórmas e tamanhos[714], e o mesmo se observa no chão. A’ esquerda[715] a parede se acha revestida d’uma incrustação d’espalto, que com o reflexo da luz arremeda uma soberba cascata. Póde esta salla ter 50 braças de comprido e 1S de largo, e no fundo della existe um espaço de 6 braças pelo menos coberto d’agua limpida porém de máo sabor[716], que dá da parte de fóra[717] origem a um ribeiro[718] represado frequentemente pelas aguas do Paraguai, nas cheias[719] que alagão todos os annos por varias vezes os campos vizinhos. Os naturaes[720] do paiz não se atrevião[721] a entrar n’estas grutas que forão pela primeira vez exploradas pelo engenheiro[722] Ricardo Franco d’Almeida Serra, em 1791, levando em sua companhia o naturalista Alexandre Rodriguez Ferreira que as debuxou[723] e descreveo[724]. Em 1795, varias pessoas[725] curiosas entrárão n’ellas e com fachas virão que no ribeiro que as aguas ali formavão havião jacarés[726], e que um d’elles tinha uma pata de menos.
Idiomatic Expressions
with Verbs, Adverbs, Prepositions etc.
Leipsic, printed by J. B. Hirschfeld.
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