[66] What a beautiful elegiac didactic picture is presented by the following sonnet on the setting sun:—
O sol he grande, caem com a calma as aves
Do tempo, em tal sazaõ que soe ser fria:
Esta agoa que d’alto cae acordarmehia,
Do sono naõ, mas de cuidados graves.
Ó cousas todas vãs, todas mudaveis,
Qual he o coraçaõ que em vós confia?
Passando hum dia vay, passa outra dia,
Incertos todos mais que ao vento as naves.
En vi ja por aqui sombras et flores,
Vi agoas, et vi fontes, vi verdura,
As aves vi cantar todas d’amores.
Mudo, et seco he já tudo, et de mistura,
Tambem fazendome eu fuy d’outras cores.
E tudo o mais renova, isto he sem cura.
Ora provemos ja a nova lingoagem,
E ao dar a vela ao vento boa viagem.
[68] The following passage with which this eclogue commences, affords a fair specimen of Miranda’s style, while at the same time it presents nothing very obscure to the foreign reader:—
Gonç. Quantas cousas Ines, madrinha, et tia,
Se me vaõ descobrindo de ora em ora,
Inda que eu faça corpo, gesto, et ria?
Polla alma de quem mais naõ pode, a fora
Outros respeitos, cumpre ter paciencia,
Té que seja da vida, ou da dór fora.
Aos erros he devida a penetencia
Por conta, por medida, por balança,
Seja juiz a propria consciencia.
Porem quando ao contrario de esperança
Em vez de galardaõ acode pena,
Quem terá sofrimento em abastança?
Amor que por antolhos tudo ordena
Bem pouco se lhe dá de que a fé sancta
Se quebre com graõ culpa on com piquena.
[69] The following elegant and simple stanzas form the commencement of the first cantiga which is sung by the complaining shepherd Gonçalo:—
Onde me acolherey? tudo he tomado,
Nam parece esperança aqui nenhuma.
Sombras feas, et negras, mal peccado,
Estas si que apparecem, cousa alguma
Naõ ficou por fazer, como o passado,
Será o que he por vir, ouçame a Luma,
Delgada, que traspoem polo alto monte,
Seus trabalhos cos meus coteje, et conte.
Que se os velhos Solaos fallam verdade,
Bem sabe ella por prova, como Amor
Mata, et averá de mi piedade:
Endimiaõ tam fermoso, et tal pastor,
Entre as flores dormia em fresca idade,
Olhando ella do Ceo perdia a cór,
Té das flores ciosa, et d’agoa clara,
Que o seu fermoso Amor lhe adormentára.
[70] For example:—
Ves tu cousa, que esté queda?
Ora he noite, ora amanhece,
Ora corre huma moeda,
Ora outra, tudo envelhece,
Tudo tem no cabo a queda.
Nas Villas hum baylo dançam
Em que todos ao som andam,
Huns cá, outros lá se lançam,
Como o tanger naõ alcançam,
Mais pés, nem braços naõ mandam.
Do sangue, et leite empollado
O Bezerrinho viçoso
Corre, et salta pollo prado,
Depois lavra preguiçoso,
Tira o seu carro cansado,
Cos dias, et co trabalho
O brincar d’antes lhe esquece,
Nam he já, o que era ao malho,
Cortese, levese ao talho,
O boy velho, que enfraquece.