São estes sacerdotes dos gentios,
Em quem mais penetrado tinha inveja,
Buscam maneiras mil, buscam desvios,
Com que Thomé, não se ouça, ou morto seja.
O principal, que ao peito traz os fios,
Hum caso horrendo faz, que o mundo veja,
Que inimiga não ha tão dura, e fera,
Como a virtude falsa da sincera.

114.

Hum filho proprio mata, logo accusa
De homicidio Thomé, que era innocente:
Dà falsas testemunhas, como se usa,
Condemnaram-no á morte brevemente:
O Sancto, que não vê melhor escusa,
Que appellar para o Padre Omnipotente,
Quer diante do Rei, e dos senhores,
Que se faça hum milagre dos maiores.

115.

O corpo morto manda ser trazido,
Que resuscite, e seja perguntado
Quem foi seu matador, e será crido
For testemunho o seu mais approvado:
Viram todos o moço vivo erguido
Em nome de Jesu crucificado:
Da graças a Thomé, que lho deo vida,
E descobre seu pai ser homicida.

116.

Este milagre fez tamanho espanto,
Que o Rei se banha logo na agua santa,
E muitos após elle: hum beija o manto,
Outro louvor do Deos de Thomé canta.
Os Brahmenes se encheran de odio tanto,
Com seu veneno os morde inveja tanta,
Que, persuadindo a isso o povo rudo,
Determinam mata-lo em fin de tudo.

117.

Hum dia, que pregando ao povo estava,
Fingiram entre a gente hum arruido:
Ja Christo neste tempo lhe ordenava
Que, padecendo, fosse ao ceo subido.

A multidão das pedras, que voava,
No Sancto dá já a tudo offerecido:
Hum dos maos, por fartarse mais depressa,
Com crua lança o peito lhe atravessa.