109.

Aqui a cidade foy, que se chamava
Meliapor, formosa, grande e rica:
Os idolos antiguos adorava,
Como inda agora faz a gente inica:
Longe do mar naquelle tempo estava
Quando a Fé, que no mundo se publica,
Thomé vinha pregando, e ja passara
Provincias mil do mundo, que ensinara.

110.

Chegado aqui pregando, e junto dando
A doentes saude, a mortos vida,
A caso traz hum dia o mar vagando
Hum lenho de grandeza desmedida:
Deseja o Rei, que andava edificando,
Fazer delle madeira, e não duvida
Poder tira-lo a terra com possantes
Forças d'homens, de engenhos, de elefantes.

111.

Era tão grande o pezo do madeiro,
Que, só para abalar-se, nada abasta;
Mas o nuncio de Cristo verdadeiro
Menos trabalho em tal negocio gasta:
Ata o cordão, que traz por derradeiro
No tronco, e facilmente o leva, e arrasta
Para onde faça hum sumptuoso templo,
Que ficasse aos futuros por exemplo.

112.

Sabia bem que se com fé formada
Mandar a hum monte surdo, que se mova,

Que obedecerá logo á voz sagrada;
Que assi lho ensinou Christo, e elle o prova:
A gente ficou disto alvoroçada,
Os Brãhmenes o tem por cousa nova:
Vendo os milagres, vendo a sanctidade,
Hão medo de perder autoridade.

113.