Ai do que a sorte assignalou no berço
Inspirado cantor, rei da harmonia!
Ai do que Deus ás gerações envia
Dizendo: vae, padece, é teu fadario,
Como um astro brilhante o mundo o admira,
Mas não vê que essa chamma abrazadora
Que o cerca d'esplendor, tambem devora
Seu peito solitario.
Pairar nos céos em alteroso adejo,
Buscando amor, e vida, e luz, e glorias,
E vêr passar quaes sombras illusorias
Essas imagens de fulgor divino:
Taes são vossos destinos, ó poetas,
Almas de fogo que um vil mundo encerra;
Tal foi, grande Camões, tal foi na terra
Teu misero destino.
A cruz levaste desde o berço á campa:
Esgotaste a amargura até ás fezes:
Parece que a fortuna em seus revezes
Te mediu pelo genio a desventura.
Combateste com ella como o cedro
Que provoca o rancor da tempestade,
Mas cuja inabalavel magestade
Lhe resiste segura.
Foste grande na dôr como na lyra!
Quem soube mais soffrer, quem soffreu tanto?
Um anjo viste de celeste encanto,
E aos pés cahiste da visão querida...
Engano! foi um astro passageiro,
Foi uma flôr de perfumado alento
Que ao longe te sorriu, mas que sedento
Jámais colheste em vida.
Sob a couraça que cingiste ao peito
Do peito ancioso suffocaste a chamma,
E foste ao longe procurar a fama,
Talvez, quem sabe? procurar a morte.
Mas, qual onda que o naufrago arremessa
Sobre inhospita praia sem guarida,
A morte crua te arrojou á vida,
E ás injurias da sorte.