De praia em praia divagando incerto
Tuas desditas ensinaste ao mundo:
A terra, os homens, té o mar profundo
Conspirados achavas em teu damno.
Ave canora em solidão gemendo,
Tiveste o genio por algoz ferino:
Teu alento immortal era divino,

Perdeste em ser humano:

Indicos valles, solidões do Ganges,
E tu, ó gruta de Macau, sombria,
Vós lhe ouvistes as queixas, e a harmonia
D'esses hymnos que o tempo não consome.
Foi lá, n'essa rocha solitaria,
Que o vate desterrado e perseguido,
Á patria ingrata, que lhe dera o olvido,

Deu eterno renome.

«Cantemos!» disse, e triumphou da sorte.
«Cantemos!» disse, e recordando glorias,
Sobre o mesmo theatro das victorias,
Bardo guerreiro, levantou seus hymnos.
Os desastres da patria, a sua quéda
Temendo já no meditar profundo,
Quiz dar-lhe a voz do cysne moribundo

Em seus cantos divinos.

E que sentidos cantos! d'Ignez triste
Se ouve mais triste o derradeiro alento,
Ensinando o que póde o sentimento
Quando um seio que amou d'amores canta;
No brado heroico da guerreira tuba
O valor portuguez sôa tremendo,
E o fero Adamastor com gesto horrendo

Inda hoje o mundo espanta!

Mas ai! a patria não lhe ouvia o canto!
Da patria e do cantor findava a sorte:
Aos dous juraram perdição e morte,
E os dous juntaram na mansão funerea...
Ingratos! ao que alçando a voz do genio
Além dos astros nos erguera um solio,
Decretaram por louro e capitolio

O leito da miseria!