Acaso és tu a imagem vaporosa
Que me sorriu nos sonhos d'outra idade,
Como a luz da manhã sorri formosa
Nos espaços azues da immensidade?
És tu esse astro que minha alma anhela,
Que debalde busquei no mar da vida,
Qual busca o nauta bonançosa estrella
No meio da procella enfurecida?
Ah! se és esse ente que meu ser domina,
Se és essa estrella que meu fado encerra,
Se és algum anjo da mansão divina
Pairando sobre a terra;
Já que baixaste a mim, já que a meu lado
Me apontaste sorrindo o ethereo véo,
Não me deixes na terra abandonado,
Transporta-me ao teu céo!
ULTIMOS MOMENTOS DE ALBUQUERQUE
AO MEU AMIGO A. AYRES DE GOUVEIA
Companheiros, sinto a morte
Pairando já sobre mim;
Cessaram vaivens da sorte,
Desço á terra, d'onde vim...
Do calix da desventura
Eis esgotada a amargura;
No leito da sepultura
Terei descanço por fim.
Terei: a campa é um asylo
Que ao impio deve aterrar,
Mas eu dormirei tranquillo
Sob a lagea tumular.
Eu... desgraçado, que digo!
Nem lá espero um abrigo,
Que os meus restos no jazigo
Irão talvez insultar.
Murmurando: «aqui repousa
Um desleal portuguez,»
Irão partir minha lousa,
Meu nome calcar aos pés:
E o guerreiro que descança
Não poderá, por vingança,
Brandir na dextra uma lança,
Cingir ao peito um arnez...
Quaes foram, rei, os meus crimes
Para haver tal galardão?
Por que a fronte assim me opprimes
Com a tua ingratidão?
De vis intrigas cercado
Ouviste seu impio brado.
E sobre as cans do soldado
Lançaste negro baldão.
Não merecia tal premio
Quem debaixo d'este céo,
Da roxa aurora no gremio,
Um novo imperio te deu;
Quem á custa d'uma vida
Nas batalhas consumida,
Ante as quinas abatida
A India inteira rendeu.
Por dar-te a c'rôa brilhante
Que em tua fronte reluz,
Fiz a meus pés arquejante
Cahir a opulenta Ormuz;
Malaca sentiu meu raio,
E em Gôa, roto o Sabaio
Entre o sangue, entre o desmaio,
Alcei o pendão da cruz.
Então desde o Nilo ao Ganges
Cem povos armados vi,
Erguendo torvas phalanges
Contra mim e contra ti;
Vi os filhos do deserto
Em ondas rugindo perto;
Mas com ferro em campo aberto
Ás suas iras sorri.
Contra as lanças portuguezas
A India luctou em vão,
Que em troca d'ouro e riquezas
Veio comprar seu grilhão.
Aos golpes de meus soldados
Vi seus thronos abalados,
Vi ante mim ajoelhados
Reis d'Onor e de Sião.
Mas d'Asia não pôde o ouro
Cegar-me com seu fulgor,
Porque a honra é o thesouro
Dos meus passados, senhor.
Eu quiz adornar-te a frente
C'um diadema refulgente:
Ganhei o sceptro do Oriente,
E a teus pés o fui depôr.
N'esses campos de batalha
Onde audaz o conquistei,
Das armas sob a mortalha
Porque exangue não findei?
Entre os louros da victoria
Morrêra ao menos com gloria;
Do teu soldado a memoria
Não a mancháras, ó rei.
Eu desleal?! se meus brados
Podem chegar até vós,
Erguei-vos, restos sagrados
De meus extinctos avós!
Erguei-vos da campa fria,
E com sangue, á luz do dia,
Lavae a nódoa sombria
Que arrojaram sobre nós!