Eu desleal... mas ao mundo
Que vale queixas mandar?
As vozes d'um moribundo
Não vão na terra eccoar...
Surge, ó morte!... e vós, amigos,
Socios de tantos perigos,
Vinde... nem só inimigos
Me restam ao expirar.
No reino vos deixo um filho:
Nossos feitos lhe ensinae;
Dizei-lhe qual foi o trilho
Que em vida seguiu seu pae...
Dizei-lhe qual foi meu norte;
Mas, em quanto á minha sorte,
Oh! não lhe aponteis a morte,
A vida só lhe apontae...
E se fallardes um dia
A dom Manoel, o feliz,
Dizei-lhe que na agonia
Albuquerque o não maldiz;
Que á beira da sepultura,
Para um filho sem ventura,
Invoco sua ternura,
Se alguns serviços lhe fiz.
E vós... e vós, portuguezes,
Nossa patria defendei;
Dae-lhe os peitos por arnezes,
Seja a patria vossa lei.
N'um throno que ella não tinha
Eu vol-a deixo rainha,
Mas não sei o que adivinha
Meu pensamento... não sei.
Entre as sombras do futuro,
Meu Deus! a patria em grilhões!
Pelo mar em vão procuro
Seus orgulhosos pendões...
Coberta d'amargo pranto,
Lá se envolve em negro manto...
Lá roja a face em quebranto...
Ella, a grande entre as nações!
Oh! se este braço podéra
A fria lousa quebrar,
Este braço inda se erguêra
Da tumba, para a salvar;
Apontando-lhe a vingança,
Inda lhe dera esperança,
E empunhando a antiga lança,
Á morte a fôra arrancar.
Mas eis marcado o momento
No livro d'além dos céos...
Eis a morte... o passamento...
São findos os dias meus...
Companheiros de victoria,
De tantos dias de gloria,
Guardae... guardae na memoria,
D'Albuquerque o extremo adeus...
A morte... a morte... que anceio!
Sinto um gêlo sepulchral...
Abre-me, ó terra, o teu seio,
Quero o repouso final...
Desce, guerreiro cançado,
Desce ao tumulo gelado...
Mas a affronta... deshonrado...
India... filho... Portugal!...
A TI
Oh! quão formoso me surge o dia
Lá quando a noite se inclina ao mar,
Quando na aurora, que me extasia,
Teu bello rosto cuido avistar!
Não sei que esp'rança jámais sentida
Então me adeja no peito aqui;
É que na aurora saúdo a vida,
Outr'ora escura, sem luz, sem ti.
Correm as horas, a noite avança,
A lua brilha com meigo alvor;
Então minha alma, que em paz descança,
Divaga em sonhos d'ignoto amor.
No véo d'estrellas, na branca lua
Meus olhos buscam olhos que eu vi,
E o pensamento longe fluctua,
E uma saudade revôa a ti.
Eis que adormeço, e um anjo assoma
Todo cercado d'etherea luz;
De seus cabellos recende o aroma
Das castas rosas que o céo produz.
O céo me aponta, sorri-lhe a face;
Acordo, e o anjo foge d'alli;
Mas em meu peito logo renasce
Doce esperança que vem de ti.
Já pela terra surgem verdores,
Auras serenas baixam do céo,
As aves cantam novos amores,
Tudo se cobre d'um floreo véo;
E céos e terra, montes, paizagem,
Tudo a meus olhos, tudo sorri;
É que alli vejo só tua imagem,
E que hoje vivo mas só por ti.
Talvez que eu sinta meu pobre enleio
Passar qual brilho de luz fugaz:
Que importa? ao menos dentro em meu seio,
Já morta a esp'rança, tu viverás.
Oh! sim, que os dias são mais serenos
Com tua imagem gravada alli;
Té mesmo a morte custará menos,
Junto ao sepulchro pensando em ti.
INFANCIA E MORTE
«Ó mãe, o que fazes? em cama tão fria
«Não durmas a noite... saiamos d'aqui...
«Acorda! não ouves a pobre Maria,
«Pequena, sósinha, chorando por ti?
«Porque é que fugiste da nossa morada,
«Que alveja saudosa no monte d'além?
«Depois que tu dormes na terra gelada,
«Quão só ficou tudo mal sabes, ó mãe.
«A nossa janella não mais foi aberta,
«O fogo apagou-se na cinza do lar,
«As pombas são tristes, a casa deserta,
«E as flores da Virgem se vão a murchar.
«Oh! vamos, não tardes... mas tu não respondes...
«Em vão todo o dia meu pranto correu;
«No fundo da cova teu rosto me escondes,
«Não ouves, não fallas... que mal te fiz eu?
«Escuta! na torre de frestas sombrias
«O sino da ermida começa a tocar...
«Acorda! que o toque das Ave-Marias
«Á imagem da Virgem nos manda rezar.
«A lampada exhausta de Nossa Senhora
«Ficou apagada, precisa de luz:
«Oh! vem accendêl-a, e á Mãe que se adora
«Alli rezaremos, e ao Filho na cruz.
«Depois á costura, sentada a meu lado,
«Tu has de contar-me, bem junto de mim,
«Aquellas historias d'um rei encantado,
«De fadas e moiras, d'algum cherubim.
«A d'hontem foi triste, pois triste fallavas
«De vida e de morte, d'um mundo melhor;
«E o rosto cobrias, e muda choravas,
«Lançando teus braços de mim ao redor.
«Depois em silencio teus olhos fechaste,
«Tão pallida e fria qual nunca te vi;
«Chamei-te era dia, mas não acordaste,
«E em quanto dormias trouxeram-te aqui.
«Oh! vamos, não tardes, que as noites sombrias,
«Sem ti a meu lado, me causam pavor;
«Acorda! que o toque das Ave-Marias
«Nos diz que rezemos á Mãe do Senhor.»
Taes eram as queixas da pobre Maria...
O sino da ermida cessou de tocar...
E a mãe entretanto dormia, dormia;
Do somno da morte não pôde acordar.
Tres dias, tres noites a filha sósinha
No adro da egreja por ella chamou...
Ao fim do terceiro já força não tinha;
Da mãe sobre a campa, gemendo, expirou.