Mas tu entanto, confidente meiga,
Em cada noite vem fallar-me d'ella;
E em meu peito sombrio e solitario
Derrama, envolto no teu doce brilho,
O balsamo suave da esperança.
Assim possas tu ser, benigna deusa,
A invocada dos tristes; e se acaso
Amas tambem, se algum remoto lago
Entre floridas margens escondido
Te prende as affeições, possas tu sempre
No crystallino azul de suas aguas
Sem nuvens espelhar teu rosto ameno!

AMOR E ETERNIDADE

Repara, doce amiga, olha esta lousa,
E junto aquella que lhe fica unida:
Aqui d'um terno amor, aqui repousa
O despojo mortal, sem luz, sem vida.
Esgotando talvez o fel da sorte,
Poderam ambos descançar tranquillos;
Amaram-se na vida, e inda na morte
Não pôde a fria tumba desunil-os.
Oh! quão saudosa a viração murmura

No cypreste virente

Que lhes protege as urnas funerarias!
E o sol, ao descahir lá no occidente,

Quão bello lhes fulgura
Nas campas solitarias!

Assim, anjo adorado, assim um dia
De nossas vidas murcharão flôres...
Assim ao menos sob a campa fria
Se reunam tambem nossos amores!

Mas que vejo! estremeces, e teu rosto,
Teu bello rosto no meu seio inclinas,
Pallido como o lirio que ao sol posto

Desmaia nas campinas?

Oh! vem, não perturbemos a ventura
Do coração, que jubiloso anceia...
Vem, gosemos da vida em quanto dura;
Desterremos da morte a negra ideia!
Longe, longe de nós essa lembrança!
Mas não receies o funesto córte...