Doce amiga, descança:
Quem ama como nós, sorri á morte.
Vês estas sepulturas?
Aqui cinzas escuras,
Sem vida, sem vigor, jazem agora;
Mas esse ardor que as animou outr'ora,
Voou nas azas d'immortal aurora
A regiões mais puras.
Não, a chamma que o peito ao peito envia
Não morre extincta no funereo gêlo.
O coração é immenso: a campa fria
É pequena de mais para contêl-o.
Nada receies, pois: a tumba encerra
Um breve espaço e uma breve idade;
E o amor tem por patria o céo e a terra,
Por vida a eternidade!
O ESCRAVO
Tremes, escravo? baqueias
Entre os muros da prisão?
Vergado sob as cadeias
Rojas a fronte no chão?
Já da turba ao longe o grito
Pede teu sangue maldito:
Sentes, escravo proscripto,
Vacillar teu coração?
Não sinto! nada perturba
Minha alegria feroz:
Nem o bramir d'essa turba,
Nem a lembrança do algoz.
Vinguei-me! nada me aterra.
Curvae-vos, homens da terra!
Contra mim jurastes guerra;
Guerra jurei contra vós.
Eu era livre sem méta
Como as ondas lá no mar;
Era livre como a séta
Quando sibila no ar:
Foi vossa avidez tyranna
Que me algemou deshumana.
Ó minha pobre choupana!
Ó florestas do meu lar!
Além, além nas florestas,
Foi além onde eu nasci;
Onde sem prisões funestas
Já venturoso vivi.
Foi dos bosques na espessura
Que eu tive amor e ternura;
Mas liberdade e ventura,
Patria, amor, tudo perdi.
Perdi tudo! além da morte
Já não me resta ninguem.
Tinha um pae: a negra sorte
Do filho soffreu tambem.
Trouxe da patria distante
O ferreo jugo aviltante,
Inda eu era tenro infante
Nos braços de minha mãe.