Minha mãe!... oh! quantas vezes
Me vinha a triste abraçar,
E carpindo os seus revezes
Fitava os olhos no mar!
Seu pranto cahia ardente,
Em bagas, na minha frente;
E eu, pobre infante innocente,
Chorava de a vêr chorar.
Mais tarde, quando o navio
Me trazia á escravidão,
Nas praias do mar bravio
Eu a vi cahir no chão;
Via-a atravéz dos espaços,
Morrendo, estender-me os braços...
Sacudi meus ferreos laços;
Mas, ai de mim! era em vão.
Perdi-a! só me restava
A virgem do meu amor,
Que a mulher que eu adorava
Quiz partilhar minha dôr.
Mas tinha sua belleza
Só d'um escravo a defeza...
Devia, oh raiva! ser prêza
De meu infame senhor.

E eu, soberbo vezes tantas,
Curvei-me d'aquella vez:
Arrastei ás suas plantas
Minha feroz altivez.
Debalde! que o vil tyranno
Escarneceu do africano;
Maldição! vaidoso, ufano,
Meu amor calcou aos pés.
--É minha, só minha a escrava:
A ti, pertence o grilhão:--
Disse, e o sangue me escaldava
No fundo do coração.
Da vingança a torva imagem
Me sorriu, me deu coragem,
No meu gemido selvagem
Rugiu irado o leão.
Era noite!--negro sonho
Que d'estes olhos não sae!--
Era noite! em céo medonho
Vi tua sombra, ó meu pae...
Rojando um grilhão pesado,
Teu espectro ensanguentado
Se ergueu sombrio a meu lado,
Sem dar um gemido, um ai...

Té que alçando a voz:--meu filho!
Meu filho!--bradaste emfim,
E os olhos turvos, sem brilho,
Tinhas cravados em mim...
Eu quiz lançar-me em teus braços,
Quiz cingir-te em doces laços;
Mas, fugindo aos meus abraços,
Volvias a olhar-me assim.
Foste escravo... teu destino,
Tua morte compr'hendi,
E um nome, o do assassino,
Delirando te pedi;
Mas sem attender a nada,
Erguendo a dextra myrrhada,
--Vingança!--com voz irada
Bradaste, e não mais te vi.
Sim, vingado foi teu sangue
Por este braço a final,
Que um d'elles cahiu exangue
Aos golpes do meu punhal.
Era amargo o fel da taça:
Vinguei a nossa desgraça
N'um dos tigres d'essa raça,
No sangue do meu rival.

Vinguei o meu e teu jugo!
Que importam ferreos grilhões,
O cadafalso e o verdugo,
O supplicio e as maldições?
Entre os gôsos da vingança
Reluz emfim a esperança;
Já não receio a lembrança
De seus cruentos baldões.
Sinto correr-me nas veias
O fogo que lhe ateei...
Quebrai-vos, duras cadeias,
Escravo não mais serei...
Sou livre! a morte o proclama
N'este peito que se inflamma...
Já n'elle circula a chamma
Do veneno que eu tomei!

O ANJO DA HUMANIDADE

Era na estancia crystallina e pura,
Que além do firmamento rutilante
Se ergue longe de nós, e está segura
Em milhões de columnas de diamante;
Jerusalém celeste onde fulgura
Do eterno dia o resplendor constante,
E onde reside a gloria e magestade
D'Aquelle que povôa a immensidade.
Na mansão mais recondita e profunda
A soberana Essencia o throno encerra,
D'onde a fonte de amor brota fecunda,
Os astros animando, os céos e a terra;
Um mar de luz seus penetraes circumda,
Que o proprio archanjo deslumbrado aterra,
Luz que em triangulo ardente se condensa
Quando o Eterno os oraculos dispensa.

Por toda a parte o azul e as pedrarias
Na cidade divina resplandecem;
Mil arcadas de soes, mil galerias
De brilhantes estrellas, a guarnecem;
Os anjos em lustrosas jerarchias
Nas harpas d'ouro melodias tecem,
Outros em córos adejando vôam,
E d'aromas e canto o céo povôam.
Eis de repente nos umbraes divinos,
Sobre as azas pairando, um anjo entrava,
Parecendo de sitios peregrinos
Que ás regiões celestes assomava;
Cruzando o empyreo, as legiões, e os hymnos,
Qual rapido luzeiro perpassava,
Té que chegando ao throno do Increado,
Nos ultimos degraus ficou poisado.
Pelos eburneos hombros o cabello
Em annelladas ondas lhe cahia;
A saphira das azas sobre o gêlo
Das roupagens luzentes refulgia.
Mais brilhante não é, não é mais bello,
Comparado com elle, o astro do dia,
Ou a estrella que brilha quando a aurora
De purpurina luz o céo colora.

Ao throno augusto levantou a frente,
Mas com as azas a toldou ancioso,
Não podendo soster o brilho ardente
Que despedia o fóco luminoso.
A milicia dos anjos resplendente
Fixou attenta seu irmão formoso;
Os concertos pararam, e elle entanto
Assim fallou entre o geral espanto:
«Eterno Ser, que as divinaes moradas
«Enches de gloria em magestoso assento,
«Fonte de vida e creações variadas,
«Que dás ao mundo poderoso alento;
«A cujo acêno tremem abaladas
«As columnas do ethereo firmamento,
«E cujo nome, que o universo entôa,
«No céo, na terra, e nos abysmos sôa!
«Por teu mando supremo destinado
«A conduzir a humana descendencia,
«Desde que a mancha do cruel peccado
«A fez cahir da primitiva essencia:
«Venho a final, Senhor, de teu mandado
«Dar-te conta fiel, apóz a ausencia;
«Fazer-te ouvir da humanidade os prantos,
«E aguardar teus preceitos sacrosanctos.

«Ordenaste-me, ó Deus, que sempre attento,
«Proseguisse na terra a lei sob'rana
«Que rege, na amplidão do firmamento,
«A creação que de teu seio emana:
«Essa lei de progresso e movimento
«Tenho cumprido na familia humana,
«Desde que ao mundo, a combater seu fado,
«O desterrado do eden foi lançado.
«Primeiro, sobre a terra esclarecendo
«Seus duvidosos passos vacillantes;
«Depois, o justo e seu baixel sostendo,
«Nas aguas do diluvio sussurrantes:
«De novo á terra, de pavor tremendo,
«Conduzindo mais puros habitantes;
«Mais tarde, junto ao berço do Messias,
«Annunciando ao mundo novos dias.
«Agora, sobre as ruinas d'um imperio
«Outro imperio de novo edificando;
«Agora, as povoações d'um hemispherio
«Sobre as d'outro hemispherio derramando;
«Já do teu Verbo o divinal mysterio,
«Com as sanctas doutrinas, propagando;
«Já mostrando por fim á humanidade
«Nova luz de justiça, e de verdade.

«Quantos velhos sophismas desterrados!
«Quantos idolos falsos em ruinas!
«Quantos sabios triumphos alcançados!
«Quantas conquistas immortaes, divinas!
«Calcando o pó dos seculos passados,
«O homem corre ao fim que lhe destinas;
«Mas ah! Senhor, no meio da tormenta
«Seu valor esmorece e desalenta.
«Seu valor esmorece! tantas lidas,
«Tanto luctar continuo das idades,
«Tanto sangue e martyrios, tantas vidas,
«Tantas ruinas d'imperios e cidades:
«E o homem soffre, e as gerações perdidas
«Se revolvem n'um mar de tempestades,
«Sem vêr luzir esse fanal jucundo
«Que por teu Filho prometteste ao mundo.
«Quantos males ainda! a lei sublime,
«A lei d'amor que derramou teu Verbo,
«Sobre a face da terra, á voz do crime,
«Succumbe e morre por destino acerbo,
«O ferreo jugo que as nações opprime,
«Os humildes abate, ergue o soberbo,
«E o rei da terra, sobre a terra escravo,
«Soffre mesquinho seu eterno aggravo.