«Por toda a parte, em lastimoso accento,
«Se ouve gemer a humanidade afflicta.
«A terra, a mãe commum, nega alimento
«Dos filhos seus á multidão proscripta:
«Emquanto folga em vicios o opulento
«A indigencia cruel na choça habita,
«E a mãe, a mãe ao peito, em desalinho,
«Aperta morto á fome o seu filhinho.
«Entanto a guerra, que a ambição ateia,
«Ensanguenta as campinas e as cidades;
«A crua peste, que ninguem refreia,
«Converte as povoações em soledades;
«D'estes males crueis a terra cheia,
«Cobre-se inda de mil iniquidades;
«O vicio, o crime, a corrupção devora
«A pobre humanidade, como outr'ora.
«Ao vêr tanta miseria, o bom padece,
«O mau blasphema de teu nome sancto,
«A voz dos inspirados esmorece,
«O futuro se envolve em negro manto...
«Eu mesmo, eu mesmo, recolhendo a prece
«Que a humanidade te dirige em pranto,
«Subi confuso ao eternal assento,
«A depôr a teus pés meu desalento.»
Disse, e um gemido d'afflicção pungente,
Semelhante a dulcisona harmonia,
Soltou do peito, reclinando a frente
Com celeste e ideal melancholia:
Assim pendendo ao longe no occidente,
Se reclina saudoso o astro do dia;
Assim reclina a pallida açucena,
Açoitada do vento, a fronte amena.
Depois continuando: «ó Deus, quem ha de
«Sondar mysterios que teu seio esconde!
«Tuas leis divinaes, tua vontade
«Cumprirei sobre a terra. Eia responde:
«Os passos da mesquinha humanidade
«Aonde os levarei, Senhor, aonde?»
Uma voz retumbou no céo radiante,
Que ao anjo respondeu, dizendo:--ávante!
PARTIDA
Ai, adeus! acabaram-se os dias
Que ditoso vivi a teu lado;
Sôa a hora, o momento fadado;
É forçoso deixar-te e partir.
Quão formosos, quão breves que foram
Esses dias d'amor e ventura!
E quão cheios de longa amargura
Os da ausencia vão ser no porvir!
Olha em roda estas margens virentes:
Já o outomno lhes despe os encantos;
Cedo o inverno com gelidos mantos
Baixará das montanhas d'além.
Tudo triste, sombrio, e gelado,
Ficará sem verdura nem flôres:
Tal meu seio, privado d'amores,
Ficará de ti longe tambem.
Não sei mesmo, não sei se o destino
Me dará que eu te abrace na volta...
Ai! quem sabe onde a vaga revolta
Levará meu perdido baixel?
Sobre as ondas, sem norte, e sem rumo,
Açoitado por ventos funestos,
Sumirá por ventura seus restos
Nas voragens d'ignoto parcel.
Mas ah! longe esta ideia sombria!
Longe, longe o cruel desalento!
Apóz dias d'amargo tormento
Virão dias mais bellos talvez.
Dá-me ainda um sorriso em teus labios,
Uma esp'rança que esta alma alimente,
E na volta da quadra florente
Eu co'as flôres virei outra vez.
Mas se as flôres dos campos voltarem
Sem que eu volte co'as flôres da vida,
Chora aquelle que em tumba esquecida
Dorme ao longe seu longo dormir;
E cada anno que o sôpro do outomno
Desfolhar a verdura do olmeiro,
Lembra-te inda do adeus derradeiro,
D'este adeus que te disse ao partir!
CANTO DE PRIMAVERA
Eis surge a quadra flórida,
A quadra dos amores,
Vertendo almos fulgores
De seio juvenil.
Tudo revive ao hálito
Que a natureza aquece;
Tudo rejuvenesce
Á luz do ameno abril.
Os bosques odoriferos
Se cobrem de verduras:
Nos montes e planuras
Renasce a tenra flôr;
Dos perfumados zephyros
Ás musicas suaves
Se juntam das mil aves
Os canticos d'amor.
Salvè, estação esplendida,
Ó luz appetecida,
Que á terra dando vida,
A tudo dás prazer!
Minha alma em doces extasis
Festeja a tua vinda,
E se ergue á luz infinda,
Manancial do ser.
D'onde, ó calor benefico,
Derivas teu alento?
E d'onde o movimento
Que dás á creação?
Do fóco sempre vívido
Que anima a natureza
Por toda a redondeza
Da terra, e da amplidão.
Como nos campos fulgidos
Espalha essas estrellas,
Assim as flôres bellas
Nos campos terreaes:
Quão bello, ó Providencia,
É teu poder fecundo,
Enchendo o vasto mundo
D'alentos immortaes!
Debalde o immenso vortice
Retoma quanto gera:
Tudo se regenera
No perennal crisol,
E tudo canta harmonico
O Ser que, das alturas,
Aos gêlos dá verduras,
Ás sombras novo sol.
Cantae, ó aves módulas,
Cantae em côro ledo!
Murmurios do arvoredo,
Cantae a Jehovah!
Campinas aromaticas,
Erguei-lhe os mil perfumes
Das flôres em cardumes
Que a primavera dá!
Abriu-se o tabernaculo
Da terra florescente;
Todo sorri fulgente,
Todo respira amor:
Resoem n'elle os canticos
De mystica harmonia,
Dizendo noite e dia:
--Hosanna ao Creador!