«Mal hajas, cidade, que ao pobre faminto
«O pão da desgraça negaste cruel!
«Mal hajas, mal hajas, que a terra do extincto
«Talvez lhe negáras, á tumba infiel!»
E exhausto, e sem forças, cahiu de joelhos;
E a fronte cançada firmou no bordão:
Passados instantes, os olhos vermelhos
Ao céo levantava, dizendo: perdão!
Cahiam-lhe soltas no collo vergado
As longas madeixas em brancos anneis:
Que nobre semblante de rugas sulcado,
Sulcado dos annos, e mágoas crueis!
«Perdão para as vozes que solta a desgraça!
«Perdão para o triste, perdão, ó meu Deus!
«Bem hajas, que aos labios lhe roubas a taça
«De fel e amarguras, abrindo-lhe os céos.
«Já filhos não tenho, levou-m'os a guerra;
«Esposa não tenho, finou-se de dôr;
«Amigos não vejo na face da terra:
«Que faço eu no mundo? bem hajas, Senhor!
«Ás portas do rico bati sem alento,
«Eu rico n'outr'ora, mendigo por fim:
«O rico sem alma negou-me o sustento,
«Aquelles que amava fugiram de mim.
«Vaguei pelo mundo, nas faces myrrhadas
«Colhendo os insultos que ao pobre se dão;
«Sem pão, sem abrigo, por noites geladas
«Poisei minha fronte nas lageas do chão.
«Que vezes a morte chamei sem alento,
«Cançado dos annos, e fomes, e dôr!
«A morte não veio: soffri meu tormento...
«Só hoje me ouviste: bem hajas, Senhor!
«Os homens e o mundo negaram-me os braços,
«Mas tu me recolhes, tu me abres os teus...
«Minha alma te busca, desprende-a dos laços...
«Perdão para todos, perdão, ó meu Deus!»
E um ai derradeiro soltou d'anciedade,
Cahindo por terra nas urzes do chão;
Ao longe, no seio da grande cidade,
Brilhava das festas nocturno clarão.
A VIDA
A MEU IRMÃO
Que! luctar sempre em afanosa guerra
Contra os rigores d'um feroz destino!
A cada passo lacerar as plantas
N'esta agra senda que nomeiam vida!
Correr apóz um sonho, uma esperança
Que leda nos sorria, e vêl-a ao cabo
Sumir-se, desfazer-se como o fumo!
Ou, se tocamos o vedado pomo,
Arrojal-o de nós, murcho e vasio!
Alcançar por um bem, mil dissabores!
Por uma hora de gôso, mil de prantos!
Soffrer, sempre soffrer, não vir um dia
Em que possamos exclamar: ventura!
E é este o calix de aprazivel nectar
Que ao banquete do mundo nos convida?
É este o eden que nos prende os olhos,
E nos faz recuar ante o sepulchro?
Nascemos: com que pena á luz do dia
Surgimos logo do materno seio!
Filhos da dôr, obedecendo á origem,
Nos vagidos da infancia a annunciamos;
E ainda assim, no deslizar sereno
Dos dias infantis, a vida encanta;
A taça da existencia tem doçura,
Como se o mel lhe coroasse a borda
Para mais facil nos tentar os labios.
O horisonte dos annos se dilata;
Vem a idade do amor. Que bellos sonhos
Em magico painel a vista illudem!
Um ser, que a mente em chammas divinisa,
Nosso oásis feliz anima todo,
Bem como o sol anima a natureza,
Ou a rosa do valle os floreos prados.
Mas quantos podem na manhã da vida
Colher a rosa de seu mago enlevo?
Quantos a estrella que adoraram crentes
Sentem passar, e desfazer-se em breve,
Não luzeiro do céo, porém da terra,
Meteóro fugaz que baixa ao solo,
E se dissipa redobrando a noite!
As illusões do amor se desvanecem:
D'esse mundo feliz o homem baqueia
E devorando a mágoa segue ávante.
Prometheu afanoso, eil-o procura
Dar alma e vida ás creações que inventa,
Ai! já não bellas, mas de impura argilla.
Honras, gloria, poder, bens de fortuna,
Sciencia austera, festivaes prazeres,
A tudo se abalança, aspira a tudo,
E em tudo encontra desenganos sempre.
Ao ponto que fitára jámais chega,
Ou, se o alcança, não lhe dura o gôso.
Ai do que envolto em miserandas faxas,
Embalada sentiu a pobre infancia
C'os gemidos da fome! Esse á ventura
Quasi nem ousa levantar os olhos:
Perpetuo desalento lh'os abate
Á triste condição em que nascêra.
Planta gerada n'um terreno esteril,
Não se ergue altiva, não estende os ramos,
Vive entre espinhos, e entre espinhos morre.
Em vão se cança o triste: raras vezes
A dura terra lhe concede o premio
Do suor e das lagrimas que verte
No seio ingrato d'essa mãe ferina.
Um pão acerbo que amassou com pranto,
É o alimento que reparte aos filhos;
E o marco do caminho a cabeceira
Onde desprende o moribundo alento.
Ai d'elle! mas não menos desditoso
O que em purpuras e ouro vendo o dia,
Ou conduzido pela mão da sorte,
Chegou aos cumes que a fortuna habita;
E, na posse dos bens que o mundo anceia,
Palpou tremendo seu medonho nada.
Este, empunhando o sceptro, empallidece
Sentindo ás plantas vacillar-lhe o solio;
No fastigio da gloria aquelle geme,
Ao vêr o louro que lhe cinge a frente
Pelo bafo da inveja emmurchecido.
Um as honras consegue, e as vê sem preço;
Outro as riquezas, e lamenta os dias
Que mais bellos perdeu em seu alcance.
Qual, a sciencia devassando ousado,
Apóz longas vigilias estremece
Da dúvida ante o espectro; qual ardente
Das festas no rumor despende a vida,
E a taça do prazer lhe deixa o enfado.
Feliz aquelle que em modesta lida,
Isento da ambição e da miseria,
No regaço do amor e da virtude
A vida passa. Mais feliz ainda
Se, das turbas ruidosas afastado,
Á sombra do carvalho, entre os que adora,
Sente a existencia deslizar tranquilla,
Como as aguas serenas do ribeiro
Que as herdades pacificas lhe banha.
Mas, que digo! nem esse. Infindos males,
Communs a todos, seu viver não poupam.
D'um lado a crua guerra lhe sacode
O facho assolador ás brandas messes;
A pallida doença, d'outro lado,
Dos entes que mais ama o vae privando;
E elle mesmo talvez, infausta prêsa
D'essa serpente que nos liga á morte,
Nos eculeos da dôr a vida exhaure.
E, como se estes males não bastaram,
Sua mesma virtude lhe é supplicio.
Compassivo co'a dôr que os outros soffrem,
A dôr alheia o atormenta ainda.
Justo, adora a justiça; e, olhando em torno,
A injustiça e oppressão verá reinando;
Verá a innocencia victima do crime,
A virtude humilhada, o vicio altivo,
Os prantos da miseria escarnecidos,
Por toda a parte o mal, a dôr, e as queixas.
Ai d'elle, ai d'elle, se um momento pára
Na atroz contemplação de tantos males!
Ai d'elle, que turbado e confundido,
Em maldições blasphemará terrivel
Da virtude, de si, de Deus, de tudo!
Não! da vida no pélago agitado
Um abrigo não ha, não ha um porto
Onde possamos descançar tranquillos.
Em nós, dentro em nós mesmos, ruge irada
A tempestade que evitar queremos.
Como a serpente no crystal da lympha,
Na alma serena o soffrimento mora;
Não póde o gôso dos mais bellos dias