Encher o abysmo que no seio temos.
Em vão, em vão anciamos a ventura:
Somos na terra qual viajante exhausto
Que ouve o sussurro d'escondida fonte,
E morre á sêde, sem poder tocal-a.
Vida, tremenda herança d'amarguras,
Eu te hei sondado nos meus proprios males,
E em meus irmãos na dôr, nos homens todos:
Grilhão pesado que nos dá o berço,
E que depômos nos umbraes da tumba.
A lucta, a mágoa, eis os teus dons funestos.
Mas d'onde a causa do soffrer eterno
Que as gerações ás gerações transmittem?
Que um seculo, tombando de cansaço,
Como um pêso importuno lega ao outro?
D'onde o crime feroz que um tal castigo
Sobre nós attrahiu? Se um deus é justo,
Que deus, que lei, sem escutar-nos, pôde
A sentença lavrar? Silencio é tudo!
Em vão, para sabêl-o, em vão mil vezes
Interroguei confuso o céo e a terra:
O céo de bronze não me ouviu a prece,
A terra obscura não me soube o enigma.
Dos prophetas na voz, na voz dos sabios,
A dúvida cruel achei sómente.
Pedindo á morte a solução da vida,
Desci ás tumbas, apalpei as cinzas;
Quiz vêr se um echo da gelada campa
Surgia á minha voz; mas foi debalde.
Frias ossadas, carcomidos restos
De quem soffreu tambem, só me disseram
Que tudo acaba alli. A terra, a terra,
O seio impuro dos famintos vermes:
Eis o refugio, a habitação amiga
Que apóz a lucta nos espera ao cabo!
Morte, morte, bem vinda sejas sempre!
Em nome da existencia eu te saúdo!
Tu reinas pela dôr na especie humana,
E, quem sabe? talvez n'esse universo;
O sol, o mesmo sol envolto em sombras,
Parece reflectir-te as negras azas;
E acaso á tua voz, a cada instante,
Um comêta voraz fulmina um globo.
Porque inda tardas a empunhar o sceptro
Que n'este ao menos te pertence ha muito?
Ao desterrado do eden porque deixas
O resto de poder que inda te usurpa?
Eia, desprende sobre a terra as azas,
Sobre esta creação que abandonada
Talvez por seu author como imperfeita,
Qual nau perdida em tormentosos mares,
Vaga sem rumo n'esse espaço ethereo!
Mas que sinistra voz! Silencio, ó lyra!
Não mais prosigas teu cantar blasphemo!
Fanal de salvamento, luz d'esp'rança
Que na altura do Golgotha brilhaste,
Desce á minha alma que a tristeza inunda!
Desce! de todos resumindo as dôres
O calix d'Elle foi o mais acerbo.
Elle soffreu! Sofframos, e esperemos!
Depois da noite escura vem o dia:
Depois d'este desterro, a eterna patria!
DESENGANO
Vejo-a ainda! resurge a meus olhos
Como em tempos ditosos surgia,
E, qual anjo de casta poesia,
Desce ás vezes n'um sonho d'amor;
Vejo-a ainda nos céos e na terra,
Nos encantos e risos da aurora,
E, se o dia nas ondas descora,
Das estrellas no meigo fulgor.
Era a luz que brilhava em minha alma,
Era o astro que em sombras luzira,
Era o fogo sagrado que a lyra
Ás doçuras d'amor acordou...
Tudo é findo; debalde nas trevas
Busco ainda seu facho luzente:
Foi apenas um astro cadente,
Meteóro fugaz que passou.
Pobre seio que ardente pulsaste
Embalado por falsas venturas,
O fanal que na terra procuras
Sobre a terra jámais acharás.
Não ha seio que entenda no mundo
Esse ardor de teus vagos anhelos;
Não ha luz que em seus raios mais bellos
Não te esconda uma sombra fallaz.
Que te resta? um futuro vasio
D'illusões que nutriu a esperança,
E um passado de triste lembrança
Como é triste a verdade sem véo...
Olvidar! olvidar! que ao presente,
Ai! só cabe o repouso do olvido.
Olvidar! e que em gêlo sumido
Seja o fogo que em chammas ardeu!
Sonho bello que esta alma illudiste,
Chamma ardente nos céos ateada,
Vôa, vôa á celeste morada!
Lá nasceste, do mundo não és.
E tu, lyra de languidas cordas
Que d'amor suspiraste em desleixo,
Vae, oh, vae! em silencio te deixo...
Vae, oh, vae para sempre talvez!
AGAR
De Bersabé nos areaes ardentes
O desmaiado sol ia esconder-se,
E Agar, a expulsa Agar, gemendo afflicta,
Unia ao peito o moribundo filho.
O vaso d'agua que lhe dera o esposo
Esgotára-se em breve, e no deserto
Com seu pobre Ismael não descobrira,
Desde o romper do dia, a anciada fonte.
O dia declinava: eis que o infante,
Que pela mão a acompanhava exhausto,
Ardendo em sêde lhe succumbe ás plantas.
Ella vê-o cahir, ella estremece,
E, os olhos turvos em redor lançando,
Aqui e alli correndo, busca ainda,
Mas debalde, um frescor. Emfim cançada,
Ella mesma tambem, eis volve ao filho,
Prostra-se, abraça-o, com maternos beijos
Tenta anciosa prolongar-lhe a vida.
«Filho, meu filho--murmurava a triste--
«Á sêde vaes morrer! Oh! se o podésse
«Adivinhar teu pae, cruel não fôra;
«E Sara, a propria Sara, enternecida
«Emmudecêra seus fataes ciumes.
«Oh! não gemas, não gemas, que debalde
«Invocas tua mãe. Ella te escuta,
«Mas não póde salvar-te: dentro em pouco
«Em seu regaço exhalarás a vida.
«E hei de eu vêr-te expirar? vêr n'esses olhos
«Sumir-se a luz do dia? e n'essas faces,
«Que tantas vezes me sorriram ledas,
«Vêr as ancias da morte? Oh! não, não posso
«Vêr morrer o meu filho.» Disse, e ao tronco
D'uma arvore visinha o recostava;
Depois, com tristes, vagarosos passos,
Foi n'outros sitios aguardar a morte.
Alli, ao vêr o sol que esmorecia,
Desatou a chorar, e estes queixumes
Em voz convulsa murmurou ainda:
«Sol do deserto, que o meu pobre filho
«Vês expirando na soidão além,
«Com teu suave derradeiro brilho
«Beijar-lhe a face carinhoso vem!
«Oh! vem, que eu triste n'essa face pura
«Materno beijo nunca mais darei.
«Perdi meu filho: sobre a terra dura
«Correi, meus prantos, sem cessar correi!
«Quando o teu facho resurgir no oriente,
«Tudo na terra sentirá prazer;
«E lá nos campos de Mambré virente
«Mais bella a rosa te verá nascer:
«Só elle em sombras d'uma noite escura
«Adormecido ficará, bem sei.
«Perdi meu filho: sobre a terra dura
«Correi, meus prantos, sem cessar correi!
«Por mim não choro, que infeliz escrava
«Meus tristes dias findarei aqui:
«Ai! choro aquelle que no mundo amava,
«Choro meu filho que expirando vi.
«Maternos mimos, filial ternura,
«Lembrae-me os tempos que feliz gosei!
«Perdi meu filho: sobre a terra dura
«Correi, meus prantos, sem cessar correi!
«Oh! quem dissera nos passados dias
«Em que ao meu collo te cerquei d'amor,
«Oh! quem dissera que a morrer virias
«N'este deserto, sem achar frescor?
«Emmurcheceste, já não tens verdura,
«Mimoso arbusto que gentil criei!
«Perdi meu filho: sobre a terra dura
«Correi, meu prantos, sem cessar correi!