«Tantas esp'ranças, que o Senhor gerára
«Na escrava humilde, findarão assim.
«Foi mais feliz a geração de Sara:
«Cruel destino só me coube a mim.
«Em vão, em vão me prometteu futura
«Longa progenie: sem ninguem fiquei.
«Perdi meu filho: sobre a terra dura
«Correi, meus prantos, sem cessar correi!
«Quem, ó meu filho, n'este solo ardente,
«Quem no jazigo te virá deitar?
«Dizer-te:--dorme--e, reclinando a frente
«No teu sepulchro, sobre ti chorar?
«Eu não, que em breve n'esta plaga obscura
«Tambem já morta como tu serei.
«Perdi meu filho: sobre a terra dura
«Correi, meus prantos, sem cessar correi!
«Aves agrestes que me ouvis as queixas,
«Com tristes vozes o seu fim chorae!
«Brizas do ermo, suspirae-lhe endeixas!
«Astros da noite, seu dormir velae!
«Velae-o todos, que a final ventura
«Que vos reservo nem sequer terei.
«Perdi meu filho: sobre a terra dura
«Correi, meus prantos, sem cessar correi!
Mas Deus! que viu ella,
Que um ai desprendeu?
Que pomba tão bella
No manto do céo!
Que pennas de prata,
D'azul, d'escarlata,
O espaço retrata
Sereno, sem véo!
É anjo voando!
Que brilho que tem!
Que véos ondulando
De pura cecem!
Que anneis de cabello
Nos hombros de gêlo,
No collo tão bello
Cahindo ao desdem!
Descendo, descendo,
Já perto chegou;
E a pobre tremendo
Calada ficou;
E o anjo sorria
Com doce magia,
E á terra descia,
Na terra poisou.
E em roda mil lumes
De brilho sem fim
Lançava, e perfumes
De nardo e jasmim;
E a voz argentina,
Suave, divina,
Soltou peregrina,
Fallando-lhe assim:
«O que fazes, Agar, porque choras?
«Nada temas, não tens que temer:
«Se o teu filho perdido deploras,
«Esses prantos converte em prazer.
«Do deserto chegou seu gemido
«Ás alturas que habita o Senhor:
«Surge, surge, e teu filho querido
«Vae ao longe buscar sem temor!
«Surge, surge, recobra a esperança,
«Que as promessas cumpridas serão!
«O teu filho, o Senhor t'o afiança,
«Será pae d'uma grande nação.
«Gloria a Deus que no céo ouve as mágoas
«De quem soffre na terra a carpir!
«Eis um jorro de limpidas aguas:
«Ide n'ellas a sêde extinguir!»
E, assim dizendo, lhe mostrava perto
Uma fonte escondida entre verduras,
Como nunca se vira no deserto,
De tão grato frescor, d'aguas tão puras.
Depois, batendo as esmaltadas pennas,
Deixou na terra um luminoso traço;
E, agitando seu manto d'açucenas,
Sumiu-se ao longe na amplidão do espaço.
Erguendo aos céos a radiosa fronte,
A pobre mãe ao Senhor Deus louvava;
E, enchendo o vaso no crystal da fonte,
Com elle ao filho a salvação levava.
MARIA, A CEIFEIRA
(IMITAÇÃO DE UHLAND)
«Bons dias, Maria: da lida do prado
«Nem mesmo te afastam cuidados d'amor.
«Se ao fim de tres dias m'o deixas ceifado,
«A mão de meu filho te quero propôr.»
Promessa é do rico, soberbo rendeiro:
Maria, oh! quão ledo seu peito bateu!
Seus olhos brilharam, seu braço ligeiro
Mais forte nas messes a foice moveu.
Soou meio dia: que ardente seccura!
Já todos demandam a fonte, o pinhal;
Sómente nos ares a abelha murmura:
Maria não pára, que é sua rival.
O sol esmorece, bateram trindades;
Debalde o visinho lhe grita: bastou!
Zagaes e ceifeiros se vão ás herdades:
Maria, co'a foice, lidando ficou:
O orvalho desliza; desponta a seu turno
A estrella no espaço, na selva o cantor:
Maria, insensivel ao bardo nocturno,
A foice incansavel agita ao redor.
Os dias e as noites assim por taes modos,
Nutrida d'amores, mal sente passar.
Tres dias findaram; oh! vinde vêr todos
Maria ditosa d'esp'rança a chorar.
«Bons dias, Maria: já tudo ceifado!
«Lidaste devéras: a paga has de ter.
«Emquanto a meu filho, foi graça o tratado:
«Quão loucos e simples o amor nos faz ser!»
Tal disse, e passava... no peito constante,
Ai pobre Maria, que transe cruel!
Teu corpo formoso tremeu vacillante,
E exhausta cahiste, ceifeira fiel.
Um anno a coitada, sósinha comsigo,
Vivendo de fructos, vagou sem fallar...
No prado mais verde cavae-lhe o jazigo:
Ceifeira como esta jámais heis de achar.