E as turbas procellosas remoinharam,
Como as areias que o tufão agita;
E alçando todas pavorosa grita,
Com laços fraternaes se colligaram.
E emquanto erguiam seus pendões de guerra,
Eis que as azas batendo nas alturas,
Cingidos de brilhantes armaduras,
Dous archanjos pairaram sobre a terra.
Cobriam-lhes as fórmas delicadas
Escudos e couraças diamantinas,
Aureos elmos as frontes peregrinas,
Nas dextras empunhando igneas espadas.
E eu vi-os, como soes relampejantes,
Adejarem velozes sobre a terra,
Brandindo irados, em signal de guerra,
As terriveis espadas flammejantes.
Té que chegando o instante do resgate,
Fitando os povos que os olhavam mudos,
Bateram co'as espadas nos escudos,
Bradando ás multidões:--eia ao combate!
*
E os povos ao brado,
Qual mar agitado
Fervendo em cachões,
Erguiam-se fortes
Em densas cohortes,
Em mil turbilhões;
E á guerra corriam,
E feros bramiam
Quaes feros leões.
Corriam, chegaram,
E o throno cercaram
Do anjo do mal;
Mas elle!--maldito!--
Das luctas o grito
Soltára fatal;
Na mão, qual espectro,
Luzia-lhe um sceptro
De lume infernal.
Com furia sombria,
Da vil tyrannia
Ao anjo acenou,
E o prompto ministro
Seu mando sinistro
Fiel acceitou;
E eis rapido logo
As armas de fogo
Medonhas tomou.
E enormes serpentes
Vermelhas, ardentes,
Soltou pelo chão;
Das ferreas escamas
Sahiam-lhes chammas
De torvo clarão;
Cada uma nos povos
Saltava em corcovos
D'horrenda visão.
Os povos, que as viam,
Debalde investiam
Seus gyros mortaes:
Crueis lavaredas
Abriam veredas
Ás serpes fataes;
E a turba d'exangue
Cahia do sangue
Nos rios caudaes.
Mas n'isto ligeiros
Os anjos guerreiros,
No ar inda então,
Baixaram luzentes,
Quaes astros cadentes,
Á terrea mansão;
E aos anjos malvados
Correram irados
Com voz de trovão.
E todos, alçadas
As igneas espadas
Brandiram a par;
Cada uma semelha
Luzente centelha
Cruzando no ar;
Semelha no embate
A onda que bate
Na rocha do mar.
Seus olhos vibravam,
Seus gritos soavam
Em echos d'horror;
As turbas rugiam,
As armas tiniam
Com novo rancor;
O carro da guerra
Rolava na terra
Com torvo fragor.
Até que um rebombo
Soou, como tombo
Ruidoso e fatal
De penha que d'alto
Desaba, e d'um salto
Retumba no val:
Era alto ruido
Do throno abatido
Do genio do mal.
E logo infinitos
Ouvi ledos gritos,
E ouvi maldições;
E soltos aos ventos
Vi centos e centos
D'ovantes pendões;
Vi feitos pedaços
Algemas, e laços,
E ferreos grilhões.
Vi thronos cahidos,
Vi sceptros partidos
Rolarem no pó;
Vi aureos emblemas,
Vi mil diademas
Calcados sem dó;
Vi povos diversos,
Outr'ora dispersos,
Unidos n'um só.
*
Vi a terra já livre d'anciedade
Rasgar altiva seu funereo manto;
Vi os homens á voz da liberdade
Surgirem fortes do lethal quebranto.
Vi-os, tecendo fraternaes abraços,
Sem odios, sem rancor, e sem vinganças
Estreitarem d'amor serenos laços,
Unidos em sublimes allianças.
E eu louvei o Senhor! já não reinava
O anjo do mal co'a tyrannia fera:
Seu throno demolido semelhava
D'apagado volcão torva cratera.
*