Coberto de mantos de pura saphíra
Que dia tão ledo brilhava sem véos!
A estrella formosa que aos homens surgíra
Reinava em triumpho no campo dos céos.
Seu facho divino cercado de rosas
Vertia no mundo torrentes de luz,
E o mundo coberto de galas formosas
Saudava n'esse astro do Golgotha a cruz.
Dos valles, dos montes, da terra, e dos mares,
Sahiam murmurios de paz e d'amor,
Co'a voz dos humanos soando nos ares
Em cantos infindos d'infindo louvor.

Batendo serenos as azas douradas,
Os anjos formosos pairavam no céo,
Qual nitido bando de pombas nevadas
Cruzando os espaços n'um dia sem véo.
Nem elmos agora, nem malhas luzentes
Cobriam dos anjos as fórmas gentis:
De branco trajados, seus véos innocentes
Ondeavam tremendo nas auras subtis.
Cahiam-lhes soltos os longos cabellos
No collo, nos hombros d'alvura louçã,
Seus rostos ornando, mais puros, mais bellos
Que a estrella argentina da rosea manhã.
Traziam poisadas nas candidas frentes
Grinaldas singelas de casta cecem,
E as harpas eburneas tangiam cadentes,
C'roadas de rosas e lirios tambem.
Um côro celeste voando em cardumes
Seguia os archanjos com doces canções;
E todos lançando na terra perfumes
Assim descantavam por sobre as nações:

O ARCHANJO DO CHRISTIANISMO

Salve, dia que meigo fulguras
Despontando no mundo sem véo!
Salve, estrella d'amor e venturas
Que resurges formosa no céo!
Pura e bella surgíras outr'ora,
Densa nevoa cobriu tua luz;
Pura e bella resurges agora,
Vem reinar sobre os homens, ó cruz!
Vem remil-os da negra maldade,
Vem na face do mundo luzir,
Vem trazer-lhes a luz da verdade,
Que o Messias lançou no porvir!
Era o anjo das trevas maldito,
Quem do mundo regía as nações;
Foi o Verbo, o Messias predicto,
Que desceu a partir seus grilhões.
Novas crenças brotando dos labios
Revelou em seu Pae um Deus só,
E, caladas as vozes dos sabios,
Falsos deuses cahiram no pó.

Viu as gentes sepultas no crime,
E eis que armado d'augusta missão
Deu lições de virtude sublime,
D'innocencia, d'amor, e perdão.
Ensinou a brandura ao tyranno,
Ao soberbo dos justos a lei;
Ao avaro bradou:--sê humano!
E ao perverso e ao impio:--tremei!
Deu ao fraco palavras de vida,
Deu ao triste consolos na dôr,
Deu a todos a esp'rança perdida
D'outro reino de paz e d'amor.
E cumprindo do mundo a sentença
No tormento da cruz expirou;
Mas com sangue d'um Deus sua crença
Sobre a terra gravada ficou.
Do Calvario, librado nas pennas,
A mil povos com ella voei;
Mil corôas teci d'açucenas,
Com que tantos martyrios ornei.
Foi então... dá-me queixas, ó lyra,
Dá-me notas de fundo pezar...
Christo, ó Christo, a calumnia, a mentira,
Ai! ousaram teu Verbo ultrajar.

Teus ministros, sem fé na verdade,
Renegaram da sancta missão,
E entregaram a lei da igualdade
Aos tyrannos, á voz da ambição.
Logo o facho sangrento da guerra
Accenderam com impio furor,
E em teu nome cobriram a terra
D'exterminio, de sangue, e d'horror.
D'ouro e sangue mantendo seus vicios
Teus preceitos calcaram no pó;
E mil scenas de horrendos supplicios
Ostentaram ao mundo sem dó.
Então eu á celeste morada
D'entre os homens voando subi,
E a teus pés com a fronte curvada
Largas eras, ó Christo, gemi.
Mas das trevas não pôde o combate
Apagar o teu astro de luz:
Aos captivos, signal do resgate,
Eil-o surge brilhante na cruz.
Povos, povos, seccae vosso pranto!
Levantae-vos do leito da dôr!
Terra, entôa de novo o teu canto,
Doce canto de paz e d'amor!

Da maldade, dos odios, da guerra,
Para sempre o reinado morreu.
Paz aos homens na face da terra!
Gloria a Deus nas alturas do céo!

CÔRO DOS ANJOS

Hosanna! hosanna! signal de victoria,
A cruz do resgate já brilha ás nações;
Hosanna! e se eleva nos cantos de gloria
Dos anjos, dos homens, de mil gerações!

O ARCHANJO DA LIBERDADE