Ó tu que rolas n'esse campo ethereo,
Semelhante ao broquel dos meus passados,
D'onde vem os teus raios, sol brilhante?
D'onde recebes tua luz eterna?
Tu despontas solemne e magestoso;
As estrellas se escondem quando passas,
A lua fria e pallida mergulha
Nas vagas do occidente; e tu caminhas
Solitario nos céos. Quem na carreira
Te póde acompanhar? Os altos robles
Baqueiam das montanhas, e ellas mesmas
Sob o pêso dos annos se arruinam;
O oceano ora se eleva, ora se abaixa;
A propria lua na amplidão fenece:
Só tu caminhas sempre, e sempre o mesmo,
E de tanto fulgor te vanglorías!
Quando a borrasca entenebrece o mundo,
Quando rolam trovões, e adeja o raio,

Tu olhas d'entre as nuvens sobranceiro,
E sorris da tormenta! Mas debalde
Olhando Ossian procuras, que os teus raios
Ossian não mais verá, quer teus cabellos
Em nuvens orientaes flammejem soltos,
Quer descendo os espaços estremeças
Ás portas do occidente. Sol, um dia
Talvez como eu serás; talvez, quem sabe?
Dos annos teus acabarás o gyro,
E insensivel á voz da madrugada,
Em tuas nuvens ficarás dormindo.
Mas folga, folga entanto magestoso
No verdor de teus annos: a velhice
É solitaria e triste; é semelhante
Ao clarão melancholico da lua
Quando brilha entre nuvens, quando o norte
Revôa na planicie, e o caminhante
Pára convulso e de pavor transido.

COLMA

(FRAGMENTO DOS CANTOS DE SELMA)

Era em Selma e nas festas. Começava
Dos bardos o cantar: eis se adianta
D'olhos fitos no chão, banhada em pranto,
A doce, a amavel Minona. Os cabellos
Lhe ondeavam soltos ao soprar da briza

Que vinha das montanhas.

As almas dos heroes se enterneceram

Mal que as primeiras notas

De seu canto dulcissimo soaram.
Muitas vezes o tumulo de Sálgar,
E o tumulo de Colma tinham visto,
Da triste Colma abandonada ás queixas
Na collina deserta. Um dia Sálgar
Promettêra de vir e não viera;
Em torno d'ella já descia a noite:

Ouvi da triste Colma
A queixa solitaria: