«É noite! sósinha no monte elevado
«Dos ventos ruidosos escuto o bramir...
«Sombria a torrente sussurra a meu lado...
«Em triste abandono me é doce carpir.
«Descobre-te, ó lua, refulge brilhante!
«Estrellas formosas, mostrae-vos tambem!
«Guiae os meus passos ao sitio distante,
«Onde ora cançado repousa o meu bem!
«Ó Sálgar, ó chefe dos montes valente,
«Quebraste a promessa que em balde te ouvi...
«O tronco, os rochedos, a voz da torrente
«São estes, ó Sálgar, mas faltas aqui...
«Deixei por seguir-te na dôr abysmados
«O irmão que estremeço, meu pae que olvidei:
«São velhos os odios dos nossos passados,
«Mas eu, ó meu Sálgar, jámais te odiei.
«A lua calada fulgura na selva,
«Nas aguas, nas rochas, com doce clarão...
«Quem jaz em distancia dormindo na relva?
«És tu, ó meu Sálgar? és tu, meu irmão?
«Fallae, meus amigos: immoveis, deitados,
«Porque inda em silencio me não respondeis?
«Ai mortos! ai mortos! em sangue banhados!
«E tintos de sangue seus ferros crueis!

«Mataste, ó meu Sálgar, o irmão de minha alma!
«E tu, doce amigo, tu jazes tambem!
«Perdi-vos: só resta chorar-vos sem calma...
«Como eu vos amava não ama ninguem.
«Tu eras formoso nas tuas collinas:
«Elle era terrivel das luctas no ardor.
«Quem vossas espadas guiou assassinas?
«Quem pôde inspirar-vos da morte o furor?
«Mas, ai! já não ouvem meus longos gemidos...
«Na terra gelada gelados estão...
«Fallae d'entre as nuvens, phantasmas queridos,
«Que as vossas palavras medonhas não são!
«No monte sombrio que além se divisa,
«Dizei-me a caverna que triste habitaes!...
«Calados! calados! nem sôpro da briza,
«Nem voz da tormenta me traz os seus ais!
«Sentada no monte, c'os olhos absortos,
«Espero chorando do dia o raiar.
«Erguei-lhes as tumbas, amigos dos mortos,
«E n'ellas a Colma guardae um logar!
«Passou de meus dias o sonho tão ledo,
«Passou para sempre! não mais viverei...
«Ao pé da torrente que banha o rochedo,
«Oh! dae-me o repouso d'aquelles que amei!

«De noite, na serra batida dos ventos,
«Meu triste phantasma de pé surgirá,
«E ao som da rajada soltando lamentos,
«No meio das nuvens gemendo errará.
«Ao longe o viandante nos bosques perdido
«Ouvindo-lhe as queixas terá compaixão;
«As queixas, o pranto de Colma sentido
«Chorando os amigos que mortos já são.»
Tal foi, tal foi, ó Minona, o teu canto,
Doce filha de Tórman. Tristes eram
Nossas almas por Colma, e em nossas faces
Deslisavam as lagrimas em fio.

FINGAL

(CANTO PRIMEIRO)

Assentado de Tura junto aos muros
Estava Cuthullin, perto do tronco
De folhas rumorosas. Tinha a lança
Encostada ao rochedo, e aos pés o escudo.
No poderoso Cárbar meditava,
N'esse heroe que vencêra: eis lhe apparece
Móran, filho de Fithil, sentinella
Do procelloso oceano. «Ergue-te, disse,
«Ergue-te, ó Cuthullin! Eu vi ao largo
«Os navios do norte. Numerosos
«Os inimigos são; muitos os bravos
«Do potente Swáran.»

«Sempre tremes,

«Sempre, ó filho de Fithil, lhe responde
«O bellicoso chefe, e assim augmentas
«As forças do inimigo. Fíngal era,
«Fíngal, rei dos desertos, que o soccorro
«Traz a Erin dos ribeiros.»

«Vi seu chefe,

«Replíca Móran, qual rochedo avulta!
«Como um pinho sem rama é sua lança!
«Como a lua nascente o seu escudo!
«Assentado na praia semelhava
«Nuvem que pousa no calado serro!
«--Muitos, ó rei de heroes, muitos, lhe disse,
«Nossos guerreiros são. Chamam-te o forte,
«Mas os fortes em guerra não tem conta
«Junto ás muralhas da nublosa Tura.--
«Com estrondoso assento semelhante
«Ao da vaga na rocha, elle me brada:
«--Resistir-me quem ousa? Os mais valentes
«Aos meus golpes succumbem. Só podéra
«Fíngal, o rei de Selma, elle sómente,
«Meu impeto arrostar. Já combatemos
«Uma vez em Malmor. Com nossas plantas
«Volviamos a terra; as duras rochas
«Despegadas cahiam; as torrentes
«Recuavam de susto murmurando.
«Tres dias combatemos; os guerreiros
«Nos olhavam ao longe, e estremeciam.
«Diz Fíngal que cedi, que o rei do oceano
«Cahiu por terra ao quarto: o rei do oceano
«Resistiu sempre firme! Ceda-lhe hoje
«O torvo Cuthullin! ceda ao que é forte
«Como as tormentas de seu patrio berço!--»