«Oh! não, lhe torna o chefe; a nenhum homem
«Cuthullin cederá, mas ha de em campo
«Triumphar ou morrer! Toma esta lança:
«Parte, ó filho de Fithil, vae com ella
«Bater de Semo no sonoro escudo!
«De Tura á porta vêl-o-has suspenso.
«Sua voz estridente é voz de guerra:
«Hão de ouvil-a os heroes e obedecer-me.»
Partiu. Bateu no escudo. Espavorida
Tremeu na selva a corça; em torno os montes,
Os concavos rochedos retumbaram.
Dos ingremes penhascos saltam logo
Curach, e Cónnal de sanguinea lança.
Bate de Grúgal o ancioso peito;
O filho de Favi deixa a caçada;
«É o escudo da guerra!» brada Rónnar;
«De Cuthullin a lança!» brada Lúgar,
Empunha, ó Cálmar, a soante espada!
Ergue-te, ó Puno, temeroso chefe!
Deixa, ó Cairbar, o ramoso Cromla!
Eth, aproxima-te; á planicie desce
Das torrentes de Lena! Os alvos peitos
Mostra, ó Cathol, atravessando o plaino
Sussurrante de Mora; os peitos alvos
Como as espumas que arremessa a vaga
Aos rochedos de Cúthon!
Eis os chefes!
Eil-os soberbos dos antigos feitos!
Inflammados recordam as proezas,
As glorias do passado. Os olhos torvos
Chammejantes revolvem, procurando
Inimigos da patria. As mãos valentes
Descançam nas espadas. Cada vulto
Lampeja armado de brunido ferro.
Brilhantes são os chefes da batalha
Co'as armas de seus paes! Sombrios, torvos
Os seguem seus heroes, como a caterva
De pluviosas nuvens segue os igneos
Meteóros do céo. Por todo o campo
Resôa o estrondo d'armas, e d'envolta
Os uivos dos mastins; de quando em quando
Rompem cantos de guerra, e o alarido
Se repercute no fragoso Cromla.
Sobre o plaino de Lena estão postados
Como a nevoa do outomno sobre o outeiro,
A movediça nevoa tenebrosa
Que aos céos levanta a retalhada fronte.
«Filhos dos valles, Cuthullin exclama,
«Caçadores do gamo, eu vos saúdo!
«Uma nova caçada nos convida:
«O inimigo se adianta como as vagas
«Que se arrojam sombrias sobre a costa.
«Combateremos nós, filhos da guerra,
«Ou cederemos nossa Erin viçosa
«Aos filhos de Lochlin? Responde, ó Cónnal,
«Tu primeiro entre os homens, tu que partes
«Os escudos na guerra! Já mais vezes
«Com Lochlin pelejaste: empunhar queres
«A lança de teu pae?»
«De ha muito sabes,
«O chefe lhe responde, se nas guerras
«Minha lança fulgura. Seu deleite
«É ferir nos combates, é banhar-se
«No sangue d'inimigos. Mas se o braço
«Arde por combater, sereno o peito
«É pela paz d'Erin. Ó tu na guerra
«De Cormac o primeiro, observa ao longe
«A frota de Swáran. São mais densos
«Os seus mastros na costa do que os juncos
«Na lagôa de Lego. Os seus navios
«São florestas nublosas, cujos troncos
«Cedem a espaços ao soprar do vento.
«Os seus chefes guerreiros não tem conta.
«Cónnal é pela paz. O proprio Fíngal
«Evitára a peleja, elle que sabe
«Dispersar os heroes como dispersa
«O vento os sons de Colna quando a noite
«Carregada de nuvens cobre o outeiro.»
«Ah! foge, homem de paz, foge! lhe brada
«Cálmar, filho de Matha. Vae, regressa
«Aos teus montes calados onde a lança
«Jámais brilha na guerra! Vae, acossa
«O veado do Cromla! com teus dardos
«Fere a corça de Lena! Tu, em tanto,
«Tu, ó filho de Semo, d'esta guerra,
«Ó arbitro supremo, abate o orgulho
«Dos filhos de Lochlin! Suas fileiras
«Rompe atrevido! Que nenhum navio
«Das regiões da neve ouse de novo
«Galgar as ondas d'Inistor sombrias!
«Negros ventos d'Erin, rugi! Erguei-vos,
«Ó turbilhões de Lara! Que entre as nuvens
«Me espedacem as iras dos phantasmas
«Se ha prazer para Cálmar como a guerra!»
«Quando, ó filho de Matha, lhe responde
«Cónnal com lenta voz, quando me viste
«Aos combates fugir? Embora obscuro
«Seja o nome de Cónnal, sempre á guerra
«C'os amigos corri, sempre dos fortes
«O triumpho ajudei. Mas a ti fallo,
«A ti, filho de Semo, e tu me escuta.
«Ametade das terras e presentes
«Dá em troca da paz, até que Fíngal
«Aporte ás nossas praias. Mas se a guerra
«Desejas antes, minha lança e espada
«Erguerei satisfeito! os inimigos
«Correrei a affrontar! e como sempre
«Brilhará o meu animo na lucta!»
«Eu, tornou Cuthullin, amo o som d'armas
«Como a voz do trovão acompanhado
«Dos chuveiros do estio. Vossas tribus
«Ide pois ajuntar para que eu possa
«Vêr os filhos da guerra. Que elles passem
«Brilhantes como o sol antes que o vento
«Accumulando as nuvens remurmure
«Nos carvalhos de Mórven. Mas que é feito
«Dos amigos que eu tinha? Onde os que ajudam
«Meu braço nos perigos? Onde páras,
«Ó Cathba d'alvo peito? Onde te escondes,
«Nuvem da guerra, varonil Duchómar?
«Tu, Fergus, onde estás? porque me deixas
«No dia da tormenta? Eil-o que chega!
«Fergus, filho de Rossa, tu primeiro
«No prazer dos festins, braço da morte,
«Vens de Malmor acaso? vens correndo
«De tuas serras como leve gamo?
«Salve, filho de Rossa! que tristeza
«Assombra a alma da guerra?»