«Me podéra assombrar. Eia ao combate,
«Ó valentes guerreiros! Rodeae-me
«Como turbidas aguas! Cercar vinde
«De vosso rei o chammejante gladio!
«A firmeza mostrae das nossas rochas,
«D'essas montanhas que a tormenta encaram,
«E oppõe ao vento os pinheiraes sombrios!»
Como duas procellas que no outomno
Correndo oppostas de diversos montes
Se avisinham medonhas, assim torvos
Uns contra os outros os heroes correram.
Como duas torrentes que á planicie
D'altas rochas descendo as bravas ondas
Encontram restrugindo, assim ruidosa,
Fera, e terrivel se encontrou a gente
De Lochlin e Inisfail. Chefe com chefe,
Homem com homem se travou em lucta.
O ferro bate no sonoro ferro;
Abrem-se os capacetes; jorra o sangue;
As cordas zumbem nos polidos arcos;
Atravessando o espaço as frechas voam;
As lanças descem como a luz que doira
Os véos da noite em alongadas curvas.
Como o rumor do oceano quando as vagas
Encapella raivoso, como o extremo
Rebramar do trovão, assim resôa
O fragor do combate. Quando mesmo
Para a lucta cantar alli viessem
De Cormac os cem bardos, ao estrago
Dos cem bardos a voz não bastaria.
Muitas foram as mortes, muito o sangue
De heroes valentes n'esse chão vertido.
Chorae, filhos do canto, chorae morto
O nobre Sithallin! Que de Fiona
Os suspiros resoem na planicie
Do seu Ardan querido! Ambos cahiram
Como dous gamos do deserto aos golpes
Do potente Swáran. Na refrega
Elle rugia dominando as hostes
Como o espirito fero da tormenta
Que entre as nuvens campeia, e olha em triumpho
O nauta que sossobra. Nem ocioso,
Chefe da ilha das neves, foi teu braço!
Muitos, ó Cuthullin, á morte déste!
Era o teu gladio como o fogo ethereo
Que incendeia as montanhas, e fulmina
Os íncolas do val. Calcando os mortos
Relinchava Durósnnal; e no sangue
Galopava Siffada. Todo o campo
Destroçado deixavam, como as selvas
Ficam no Cromla quando passa o vento
Carregado d'espiritos da noite.
Sobre a rocha dos ventos chora afflicta,
Ó virgem d'Inistor! Inclina ás ondas
A formosa cabeça, tu mais bella
Que o espirito da serra quando ás vezes
Do meio dia sobre um raio desce
Ao silencio de Morven! Teu amigo,
O teu joven amigo já não vive!
Pallido vacillou, cahiu extincto
De Cuthullin sob a tremenda espada!
Nunca mais teu amor em valentia
Á grandeza dos reis ha de elevar-se.
Trénar, o bello Trénar cahiu morto,
Ó virgem d'Inistor! Debalde o chamam
Seus cães uivando: no solar só vêem
Seu espectro vagar. Pende na sala
Desarmado o seu arco, e no aposento
Dos seus veados, o silencio reina!
Como rolam mil vagas contra a rocha,
Taes arremettem de Lochlin as hostes.
Como o rochedo vagas mil affronta,
Taes lhes resistem as d'Erin seguras.
Á pavorosa grita que resôa
O tinido das armas se reune.
É cada heroe como um pilar de nevoa;
Sua espada na dextra é como um raio.
De lado a lado todo o campo sôa
Semelhando a fornalha onde retumbam
Na vermelha bigorna cem martellos.
Quem são esses que tetricos pelejam
Na campina de Lena? Quem são esses
Que duas nuvens na figura imitam,
Cujas espadas sem cessar lampejam?
Em derredor os montes espantados,
Os rochedos medrosos estremecem,
Quem são elles senão d'Erin o chefe,
Senão o filho do oceano? Pelo campo
Co'a vista inquieta os acompanham sempre
Seus guerreiros anciosos. Mas a noite
Os envolve nas sombras, e crescendo
Á batalha terrivel põe remate.
Do emmaranhado Cromla sobre a encosta
Depositára Dorglas o veado
Que ao romper da manhã fôra colhido,
Estando ainda na montanha as hostes,
Eis ajuntam a lenha cem mancebos,
Dez guerreiros accendem a fogueira,
E trezentos escolhem lisas pedras:
O fumo do banquete sobe aos ares.
O poderoso espirito concentra
Cuthullin meditando, e recostado
Á lança refulgente a voz dirige
Ao filho das canções encanecido,
A Cárril d'outros tempos. «Devo acaso
«Do banquete gosar, e ha de isolado
«Longe do gamo das montanhas suas,
«Longe das festas dos salões ruidosos,
«O chefe de Lochlin ficar na praia?
«Vae, ó Cárril annoso; vae levar-lhe
«Amigaveis palavras. Annuncia
«Ao que as ondas ruidosas nos trouxeram
«Que vae dar Cuthullin o seu banquete.
«Venha ouvir o murmurio dos meus bosques
«Pelas sombras da noite, pois gelado
«Sussurra o vento nas espumeas vagas.
«Venha gosar os tremulos accentos
«Da harpa melodiosa; escutar venha
«O louvor dos heroes!»
Obedecendo
Parte o velho cantor, e em tom benigno
Dos escuros broqueis diz ao monarcha:
«Acorda, ó rei das selvas, eia acorda!
«D'entre as pelles da caça te levanta!
«Na alegria das taças, no banquete
«Do principe d'Erin vem tomar parte!»
Como o sinistro sussurrar do Cromla
Antes da tempestade, elle responde:
«Quando mesmo, Inisfail, as tuas virgens
«Me estendessem os braços côr de neve,
«E descobrindo os palpitantes seios
«Os amorosos olhos me lançassem,
«Firme n'este logar, como são firmes
«As rochas de Lochlin, ficára ainda!
«N'este logar esperarei que o brilho
«Da matutina luz venha chamar-me
«De Cuthullin á morte. Eu amo o sôpro
«Dos ventos de Lochlin! Elles cruzaram
«Os espaços do mar! Elles me fallam
«No zumbir das enxarcias, e me trazem
«Minhas verdes florestas á lembrança;
«As florestas do Górmal, que eu ouvia
«Rugir ao seu befejo, quando a lança
«Do javali na caça manejava.
«Oh! vae: que o torvo Cuthullin me ceda
«O throno de Cormac, ou em torrentes
«Correrá das montanhas á planicie
«De seus guerreiros o espumoso sangue!»
«Funestos são, diz Cárril d'outros tempos,
«Os ditos de Swáran!»--«Sim, funestos,
«Responde Cuthullin, lhe hão de ser elles.
«Mas ergue a voz, ó Carril, e reconta
«Os feitos do passado. Com teus cantos
«Nos abrevia a noite; em nós desperta
«O gôso da tristeza. Heroes infindos,
«E mil virgens amantes hão passado
«Na terra d'Inisfail. Doces resôam
«Os cantos do infortunio que se elevam
«Nas rochas d'Albion quando emmudece
«O rumor da caçada, e ás vozes d'Ossian
«Se casa o murmurio das correntes.»
«No tempo que passou, começa o bardo,
«Os guerreiros do oceano a Erin vieram.
«Numerosos baixeis galgando as ondas
«Aportaram d'Erin ás mansas praias.
«Os filhos d'Inisfail se levantaram
«Dos escuros broqueis sustando a raça.
«Militava no exercito Caírbar,
«Dos homens o primeiro, e o joven Grúdar,
«De garbosa figura. Desde muito
«Que entre si contendiam pela posse
«Do immaculado touro que mugia
«Na campina de Golbum; desde muito
«Que a morte viam nos agudos ferros.
«Contra os filhos do mar um tempo unidos
«Combateram a par, venceram juntos.
«Quem na montanha possuia a gloria
«De Caírbar e Grúdar? Mas, oh pena!
«Porque mugia o immaculado touro
«Na campina de Golbum? Mal que o viram
«De novo a sanha lhes brotou nos peitos.
«Sobre as margens do Lúbar combateram:
«Grúdar cahiu sem vida. Então Caírbar
«Caminhou para o valle onde Brassolis,
«Sua irmã formosissima, entoava
«O canto da tristeza. Ella narrava
«As façanhas de Grúdar, o mancebo
«De seu intimo affecto; ella chorava
«Seus perigos no campo, e sua volta
«Esperava com ancia. O branco seio
«Lhe transluzia sob as roupas leves
«Como a lua entre nuvens; e mais doce
«Era seu canto que os gemidos da harpa.
«Em seu bem adorado tinha a mente,
«E seus olhos gentis fallavam d'elle.
«--Quando virás emfim?--ella dizia;
«--Quando virás, ó poderoso em guerras?--
«--Guarda, lhe diz o irmão, guarda, ó Brassolis,
«Este escudo sangrento: vae fixal-o
«Da minha sala no elevado tecto.
«É o escudo de Grúdar!--Mal que o ouve
«A donzella estremece, e a côr perdendo,
«Sem tino, eil-a que parte. Envolto em sangue
«Na planicie de Cromla vê o amante,
«E junto d'elle, vacillando, expira.
«É este, Cuthullin, é este o sitio
«Em que repousam ambos! Estes cedros
«Lhes brotaram nas campas, e saudosos
«Do furor das tormentas os defendem.
«Formosa era Brassolis na planicie!
«Elegante era Grúdar na montanha!
«Hão de os cantos dos bardos memoral-os,
«E ao remoto porvir levar seus nomes!»
«Suave é tua voz, suave, ó Cárril,
«Diz o chefe d'Erin. São apraziveis
«Os contos do passado, como o orvalho
«Da amena primavera quando brilha
«Pelos campos o sol e a nuvem leve
«Revôa nas collinas. Ao som da harpa
«Celebra o meu amor, a luz serena
«Da solitaria estrella de Dunscaith.
«Canta a gentil Bragela, a terna esposa