«--Morto, exclama
«Em desespêro a angustiada virgem,
«Morto o filho de Tórman! nos seus montes
«Extincto o joven de nevado peito!
«O primeiro em caçadas, o inimigo
«Dos guerreiros do oceano! Eu te detesto,
«Ó Duchómar cruel! Dá-me essa espada!
«N'esse barbaro ferro quero ao menos
«Vêr o sangue de Cathba!--»
«--Elle movido
«De suas queixas, lhe confia a espada,
«E ella no peito varonil lh'a embebe.
«Bem como se despenha a ribanceira
«Da torrente da serra, elle baqueia.
«Na agonia mortal estende á virgem
«A mão convulsa, e diz: Por ti fui morto
«No verdor de meus annos. Sinto a espada
«Fria, ai, fria no peito! Meu cadaver
«Entrega á bella Moina: eu era o sonho
«Das noites d'essa virgem. Compassiva
«Meu sepulchro ha de erguer; e ha de o meu nome
«Cantar o caçador. Mas vem do peito,
«Oh! vem tirar-me este gelado ferro!--
«De lagrimas banhada acode a virgem,
«O agudo ferro extrahe, e eil-o que a furto
«O crystallino seio lhe atravessa.
«Vacillando ella cahe; o sangue em ondas
«Lhe tinge os braços niveos, a madeixa
«Desgrenhada lhe roja; e na caverna
«Seus extremos gemidos echoaram.»
«Paz, disse Cuthullin, paz e descanço
«Ás almas dos heroes! Sublimes foram
«Seus feitos de valor! Que elles me cerquem
«Pairando sobre as nuvens! que eu lhes veja
«As guerreiras figuras! Então forte
«Nos perigos serei; será meu braço
«Como o fogo do céo! E tu, ó Morna,
«Sobre um raio da lua me apparece!
«Ás horas do descanço quero vêr-te
«Quando em paz estiver, quando cessarem
«Os tumultos da guerra. Mas as hostes
«Ordenae, meus amigos, e marchemos
«Para a guerra d'Erin! Tomae por norte
«Meu carro de batalha! extasiae-vos
«Ao rumor do seu curso! Eia, a meu lado
«Tres lanças collocae! De meus cavallos
«O galope segui! Que eu possa afoito
«Com meus socios contar quando esta espada
«Relampejar nas sombras da peleja!»
Como espumea torrente que se arroja
Do tenebroso Cromla, quando rola
O trovão pelos céos, e a escura noite
Impera na montanha, quando os rostos
Dos lividos phantasmas apparecem
Nas fendas da borrasca; assim furiosa,
Vasta, e medonha se arremessa a turba
Dos guerreiros d'Erin. Na frente avança
O valoroso chefe, semelhando
A baleia do oceano acompanhada
Do marulho das ondas, ou torrente
Que arrasta as aguas através dos campos:
Aos filhos de Lochlin chega o ruido
Como o surdo rumor da tempestade:
No pesado broquel bate Swáran
Chamando o filho d'Arno. «Que sussurro
«Lhe diz, é este que nos montes sôa,
«Semelhante ao zumbido que levantam
«Os insectos da tarde? Acaso descem
«Os guerreiros d'Erin? Rugem acaso
«Os ventos na floresta? É assim que ás vezes
«Elles soam no Górmal quando querem
«Das minhas vagas açoitar o dorso.
«Sobe já, filho d'Arno, sobe ao monte,
«E estende a vista pelo escuro plaino.»
Partiu. Em breve regressou tremendo.
Em torno os olhos revolvia inquieto;
O coração lhe palpitava ancioso;
As palavras a custo proferia
Cortadas, vagarosas. «Surge, disse,
«Surge, ó filho do oceano, altivo chefe
«Dos escuros broqueis! Eu vi a negra
«Caudalosa torrente da batalha!
«As movediças forças numerosas
«Dos guerreiros d'Erin! Já temeroso
«Como a chamma da morte se aproxima
«De Cuthullin o bellicoso carro!
«Na parte posterior é recurvado
«Como a vaga ante a rocha, ou como a nevoa
«Doirada pelo sol. São embutidos
«De pedraria os lados, e resplendem
«Como em torno da barca ondas nocturnas.
«É de polido teixo fabricado
«O comprido timão; e o liso assento
«D'osso branco e macio. Tem os bordos
«Recheados de lanças, e no fundo
«O degrau dos heroes. Diante do carro,
«Á dextra parte, relinchando avulta
«O d'amplas crinas, largos peitos, forte,
«Agil, fero cavallo da montanha.
«Estrondoso galopa; a crina esparsa
«Pelo pescoço, os turbilhões imita
«Do vapor que se estende pelas rochas.
«É de brancas espadoas, e chamado
«Sulin-Siffada. Do outro lado, o esquerdo,
«Resfolga ardente o d'elevado collo,
«De raras crinas, duros pés, ligeiro
«Filho da serra, saltador ginete.
«Tem por nome Durósnnal entre os filhos
«Da guerra procellosa. Os duros freios
«Entre frocos d'espuma resplandecem.
«Cheias de pedraria as finas redeas
«Batem no collo dos frisões soberbos,
«Que ligeiros resvalam na planicie
«Como o vapor nos paludosos valles.
«Seu rapido galope é como a fuga
«Do trepido veado, e irresistivel
«Como a descida da aguia sobre a prêsa.
«Dentro do carro se divisa armado
«De rijas peças o valente chefe.
«Chama-se Cuthullin, progenie illustre
«De Semo, rei das taças. Tem córado
«O bello rosto como este arco liso.
«Sob as negras arcadas dos sobr'olhos
«As pupillas azues amplas revolve.
«Como uma chamma lhe fluctua a coma
«Quando se inclina ao manejar a lança.
«Ah! foge, rei do oceano! Elle se adianta
«Como vasta procella que rugindo
«Corre ao longo do val!»
«Fugir? e quando
«Fugir me viste? respondeu Swáran.
«Quando medroso se esquivou meu braço
«Á batalha das lanças? Quando, ó chefe
«D'alma pequena, recuei eu nunca
«Em frente do perigo? Eu já do Górmal
«Encarei as tormentas quando as ondas
«Espumavam raivosas; já das nuvens
«Arrostei os combates: hei de agora
«Ante um homem tremer? Oh não; nem Fíngal