—Vê lá, João! Não sejas injusto. Deixar-te-hias agora por ultimo levar por contos...

—Não, meu pae. Tenho muita razão para assim proceder, e outro, no meu logar, procederia d'outra fórma.

E o tio José, por sua vez, ficou tambem impressionado com as palavras do filho, sem outra conclusão ter tirado que a suspeita de qualquer acontecimento grave que viesse transtornar a felicidade d'aquelles dois seres que tanto se amavam.{135}

Nesse dia, á tardinha, um mendigo entregava occultamente uma carta a Helena.

Esta, em virtude dos acontecimentos que a impediam ha tres dias de fallar com Velloso, e preoccupada, além d'isso, com as palavras d'elle, cuja significação não alcançava e traziam o seu coração amargurado por uma terrivel angustia, tinha emmagrecido.

O corpo resente-se do soffrimento da alma. Recalcando no seu intimo a dôr que a pungia, esse esforço ia a pouco e pouco affectando-a phisicamente. Uma unica consolação encontrara para a mágua: as lagrimas—esse terno confidente dos infelizes—que vertia a sós na reclusão da sua alcova, que lhe alliviavam as amarguras do coração mas lhe desbotavam as côres do rosto e tarjavam de roxo as cavidades dos olhos.

Foi num mal dissimulado alvoroço intimo que recebeu das mãos do mendigo a carta, vinda da parte de Velloso.

Correu ao seu quarto e leu:

«Minha querida Helena: Ha tres dias que passo uma vida tão cheia de tristezas, que não podes imaginar. Na esperança de te fallar, todas as noites vou pôr-me á espreita da tua casa, a vêr se vejo abrir-se essa portaria que é para mim a porta do ceu. Em vez, porém, de te vêr apparecer como o meu anjo salvador, vejo teu irmão, que me espia, esconder-se na escuridão do muro fronteiro, e, depois de, durante cerca de duas horas de cruel espectativa, me conservar no meu posto de observação, vejo-o retirar-se.

Á minha tristeza motivada por te não vêr, junta-se a anciedade que tenho de te communicar um segredo. Este é de tanta importancia, minha Helena, e vae, com certeza, ferir de tal modo o teu coração{136} bondoso, que até receio de o confiar a uma carta. Mas farei as diligencias para que esta chegue ao seu destino; e, visto que não tenho outro meio de communicar-t'o, principio, pedindo-te que conserves a maior presença de espirito e confies em Deus para que não te faça desanimar á vista do que vaes lêr.