—Sim! O mundo inveja sempre a pouca sorte que um pobre tenha! Se é um rico, quanto mais favorecido da sorte, mais venerado é. Emquanto que um pobre...

—Pois é isso mesmo. Ora, como eu lhe ia dizendo, o seu filho ganhou uma grande affeição á minha Maria, e, até hoje, ha já sete mezes, faltou só tres vezes á noite em minha casa, onde a vae visitar: foi na noite de Natal—na noite de ceia—e hontem e ante-hontem. Como faltou estes dois ultimos dias sem nós sabermos o motivo, a rapariga tem-se lá desfeito em chorar, que até me retalha o coração.{134}

—Pois olhe que eu não sei o motivo...

—Então elle não está doente?!

—Não. Ante-hontem á noite é que, ao chegar do campo, queixou-se d'umas fortes dôres de cabeça, e foi-se deitar sem ceia. Mas hontem, logo de manhã, levantou-se e foi para o trabalho.

—Sim?!

—É verdade.

E a mãe de Maria Luiza teve de retirar-se, mais preoccupada ainda do que viera, não comtudo sem pedir ao velho que expozésse ao filho a anciedade de sua filha, que não podia adivinhar a causa de tal procedimento.

Quando, ao meio dia, João e Paulo chegaram, de enxada ao hombro, do trabalho, o pae chamou João ao alpendre e participou-lhe que a mãe de Maria Luiza tinha ido havia pouco tempo d'alli, onde tinha vindo, muito contristada, saber a razão porque ha dois dias elle não dava parte de si á filha que outra vida não fazia senão chorar.

—Sim? perguntou, ironicamente João. Coitada! Pois que chore, que quanto mais chorar menos urina! A mãe quer saber a razão porque lá não vou? Pois que o pergunte á filha, que o sabe tão bem, ou melhor, que eu!