—Que se terá passado?... pensava, ao retirar-se.
Os dias passava-os em sua casa e na do visinho,{140} que lhe communicava as impressões que a seu respeito occupavam o espirito popular.
Era a unica pessoa com quem o brazileiro tinha conversas d'este theor: nem sua propria mãe, que ás vezes lhe queria manifestar os seus queixumes da vida lamentavel que elle levava, obtinha licença para lhe tocar nesse ponto.
Elle começou a sentir remorsos da sua conducta.
Receando os olhares estranhos como se ejaculassem raios de um fogo devorador, elle não se atrevia mesmo já a apparecer na presença dos obreiros que se occupavam na construcção da sua nova habitação.
—Ó senhor Velloso! dizia-lhe o Neves chegando esbafurido na manhã do terceiro dia. Uma novidade de alta importancia: o Alamêda ficou sem filho nenhum em casa! Ficou com elle o moço, mais aquella rapariga que lá tem, filha do fallecido João da Junqueira, e dizem que vão casar para ficar na companhia do velho...
Mas o Neves achou inutil continuar, a não ser que quizesse fallar para as paredes, porque o brazileiro, a meio do discurso, rodou nos calcanhares, e, como um ébrio, sem dizer palavra, deixou o visinho embasbacado a olhar para elle, fallando comsigo:
—Mas onde diabo irá elle?... Pois sim! Vae depressa que ainda vaes a tempo! Onde irão elles já!
E depois, como um individuo que reflexiona com acerto, disse com ar de presumpção:
—Ora ahi está para que diabo serve o dinheiro! Se elle fosse pobre como eu, succedia-lhe isto? Olha lá se eu me incommodo com nada! Não tenho dinheiro; assim, as mulheres não esperam nada de mim, por isso não deito a perder ninguem! Nem me perco a mim!...{141}