Quando me retirei—já o sol ia alto—o tio Luiz lá andava a revolver a terra, agarrado á rabiça do arado, o dorso meio curvado pelo esforço.
Preparava a terra para lhe lançar os grãos, cada um dos quaes se multiplicou em dezenas d'elles.
Semeado naquella manhã formosissima de maio, o milho nasceu, passados alguns dias, lindo e verde: lançou raizes, cresceu, desenvolveu-se; foi sachado, mondado, arrendado e, por fim, cortado.
Durante os mezes que esteve na terra, mereceu ao lavrador cuidados e caricias verdadeiramente filiaes.
Trabalhos e fadigas, chuva e calôr, tudo soffreu resignado, sempre na sua fronte estampada a alegria e no seu coração a esperança...—A esperança de quê?
Nem elle o sabe, o lavrador.
Amando religiosamente a sua aldeia, alli vegeta sem ambições, idolatrando os torrões que seus paes regaram com o suor da sua fronte, colhendo os fructos das arvores que elles plantaram, e plantando outras de que seus filhos depois colherão os fructos.
E, sem o saber, vive feliz. Deus compensa-lhe as horas de labor insano com instantes de suprema ventura, passados, sem preoccupação de espirito, no dôce convivio da familia reunida em volta da lareira nas noites amenas do outomno.
Todos os dias, á hora crepuscular da tarde, quando um socêgo religioso repousa sobre a aldeia depois do toque cheio de ternura das Avè-Marias, a sua cozinha denegrida, mas alegrada pela claridade intensa duma robusta fogueira, transforma-se em um cenaculo{32} onde reina a paz e o amôr; a familia inteira, collocada a magra mas abundante refeição da noite sobre a tosca mesa de pau de pinho coberta por uma grossa toalha de estopa, senta-se em volta radiante, semelhando os discipulos do Nazareno na noite da ultima ceia.
Entretanto, cá fóra, cortando o socêgo da noite allumiada pelo meigo luar ou pela claridade das longiquas estrellas, o sino da egreja começa a dobrar ás almas, segundo o tradicional costume da aldeia, repercutindo-se o som de valle em valle, pelos campos além, penetrando os limites da freguezia visinha, até se perder na solidão da noite...{33}