O Vouga, a uns duzentos passos, deslisava silencioso. Nas suas ribas semelhantes a dous grossos cordões que tarjavam o seu leito, os passaritos, esvoaçando e chilreando, numa alegria infantil, cantavam a alvorada.

Numa encosta proxima, a vidraça duma janella reflectiu um clarão—era o sol que emergia por detraz da serra, cujo dorso gigante parecia em fogo.

O tio Luiz fez parar as vaccas, e disse:

—Agora vamos á nossa lida.

Emquanto saltei, respondi:

—Vão, vão; que se não fosse eu, já vocês tinham um bom par de leiras lavradas.

—Que tem lá isso! retrucou elle bondosamente. Mal tinhamos tempo de pôr as vaccas á charrua!

—Olhe lá! Que vem cá fazer o petiz? perguntei, indicando o pequeno que, lesto, saltara do carro e se preparava para fazer algum trabalho; não podia ter ficado a dormir?

—Quer vir, deixal-o vir! É para se ir acostumando. Como já chega a uma prateleira que lá tenho na cozinha, diz que já é um homem. Que quer que lhe faça?{31}

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