—A mim não, porque eu nunca lhes dei confiança.{38} Depois que vi o que succedeu a alguns companheiros meus por causa de taes mafarricos, nunca as pude vêr. Quer saber, tio José, o que succedeu um dia a um camarada meu por causa d'uma rapariga?

—Conta lá.

—Aquillo, andam de combinação com o demonio! Um companheiro do meu regimento arranjou conhecimento lá com um d'esses demonios qualquer; quando veio ordem para o regimento partir outra vez contra os francêses, acolá para uma terra que já me não lembra, o rapaz desappareceu. Logo ordem para ser procurado antes do regimento partir, por esses campos e montes. Partiram umas poucas de patrulhas para diversos lados, e eu fiz parte d'uma.

«No segundo dia, foi a minha patrulha encontral-o num pinhal, alli para os lados de S. Pedro do Sul. Nós iamos perguntando se tinham visto um homem assim, assim: até que uma mulher, que andava a guardar umas cabras nos apontou um pinhal. Quando viu que não havia meio de nos escapar, poz-se de joelhos deante de nós, a chorar tanto, que era uma dôr d'alma!

«Prendémol-o e trouxemol-o, e elle contou-nos então pelo caminho que a tal desavergonhada é que tinha feito com que elle desertasse.

—«E então que é d'ella? perguntamos-lhe nós.

—«Essa maldita, como eu tinha de andar escondido, emquanto andasse em terras de Portugal, para me não conhecerem, enfastiou-se de tal vida e abandonou-me.

«Pediu-nos então elle que o deixassemos vir á vontade, jurando que nos não fugiria.

«Fizemos-lhe a vontade, e, na verdade, não nos{39} fugiu; mas, quando passavamos por uma ponte, atirou-se abaixo, e já o não tornamos a apanhar senão morto.

«Tivemos de dizer que o encontramos já assim, para não sermos castigados.