«E agora, diga lá, tio Alameda; eu, depois de uma coisa assim, podia lá olhar com bons olhos uma mulher?
—Mas ellas não hão-de ser todas assim! disse, a rir, Helena.
—Pois sim: não serão todas. Mas, como a gente vê caras e não vê corações, devemos jogar sempre pelo seguro; e quando se trata de mulheres, perde-se quasi sempre!....................................
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[IV]
Era em setembro, num domingo em que se festejava o santo Estevam, cuja capella, assente na lomba do cabeço que se designa pelo nome do mesmo santo, domina, para o sul e nascente, um panorama gracioso entrecortado pela encosta de Travassô—uma encosta de aspecto taciturno, que olha com melancholia toda a região opposta simetricamente, sobre a qual se estende, beijada desde a manhã á tarde pelos raios do sol, a alegre Alquerubim.
D'essa lomba vê-se espreitar, por uma clareira entre Alumiar e a ponte da Rata, a região paludosa de que faz parte a magnifica e extensa páteira de Fermentellos. E para a esquerda, estendendo a vista por sobre o extenso planalto onde poisa a branca Mourisca, vê-se ao longe, desenhando-se nitidamente sobre o fundo azul celeste, a serra do Caramulo, com punhados de casinhas brancas a luzir no pardacento do sopé.
Nesse dia, o cabeço do Santo Estevam apresentava-se galhardamente revestido de alegres bandeiras que fluctuavam á viração da tarde como um bando de pombas.
O sol, declinando no horisonte, despedia-se, atirando, como ternos beijos, raios de calôr frouxo sobre o arraial onde a musica de S. João, disposta em circulo, lançava aos ares harmonias que eram levadas, por sobre montes e valles, a uma grande distancia.