Junto á capella, um rapaz de 24 annos, uma{41} viola a tiracolo, encostado a um varapau, ria e conversava alegremente com um grupo de moças.

Era o João do tio Alameda, o rei dos cantadores d'estes sitios.

Causava gosto vêl-o chegar a um arraial, viola em punho, encostar-se ao seu bordão, e, depois de passar levemente o dedo pollegar da mão direita pelas cordas da viola e ter dado tres ou quatro puxões numa ou noutra caravêlha para afinar o instrumento, começar a dedilhar um acompanhamento de fado. Punha-se a cantar e, entretanto, já cercado de curiosos, não tardava que uma voz feminina lhe respondesse de entre o circulo que o rodeava, e que logo se quebrava para dar passagem á atrevida cantadeira. Porque, na verdade, era um atrevimento bater-se com o João do tio Alameda.

A derrota era certa. Só havia uma que algumas vezes o levara de vencida: era uma rapariga tronchuda, com um palmo de cara regular, muito alegre e expansiva. Era a Maria Luiza.

Havia quem dissesse que o João se deixava algumas vezes vencer por ella; e com certo fundamento se dizia isto, porque, no olhar com que a envolvia, tão differente do que lançava ás outras, via-se claramente—porque o amôr não pode estar em segredo—que ella não lhe era indifferente.

—Olhae! lá acabou a musica! exclamou elle desandando para o meio do arraial.

Arrimou-se ao cajado, collocou a viola em attitude, dedilhou as cordas uma por uma, e, dando uma ultima demão á afinação, tirou um accorde.

Entretanto, uma compacta massa de espectadores o rodeavam—homens e mulheres, novos e velhos, anciosos todos por presenciarem o debate do «rei dos cantadores» com a Maria Luiza, a sua rival...{42} Porque ella lá estava, fresca como uma alface e risonha e purpúrea como uma papoila, em frente d'elle que a envolvia num olhar todo affectuso e terno:

—Se tu soubesses, menina,
Quantas 'strellas ha no ceu,
Saberias quantos suspiros
Dá por ti o peito meu.

A sua voz era sonora e forte e elle cantava moderadamente, de maneira a ser ouvido pelo grupo todo.