Á entrada do recinto que cerca a egreja, uma outra mulher, collocando no chão um cêsto de castanhas cosidas e uma ceira de figos, sentou-se num pedregulho, á espera de freguezes.
O sachristão abriu a porta principal da egreja, e d'ahi a pouco tempo, embrulhadas em chales pretos, duas beatas, semelhantes a duas almas penadas, depois de, ao passarem pelas vendedeiras da hortaliça e dos figos, mastigarem, numa linguagem cantarolada, um «Deus vos dê muito bom dia!», entraram, benzendo-se seraphicamente, com o pé direito na egreja.
Dentro d'esta, encantadoramente recostado num presepio collocado num dos altares do lado direito, o Menino Jesus sorria, pequenino e nú, com um sorriso infinitamente bom e amavel. Deitada graciosamente num presepio todo engalanado e alumiado, essa pequenina estatua divina estendia os braços, n'uma alvura de jaspe, como querendo abraçar a humanidade inteira num amplexo de amôr divino e paternal.
Ao lado do altar estava um grande cesto destinado a receber as offertas de pequeno lóte.
Os fieis começaram a affluir ao templo.
O velho prior...
—Que bom homem que elle{59} era! Que candura d'alma se reflectia sempre naquellas pupillas que se fixavam nos nossos olhos cheias de amôr e affabilidade! Com que bondade me pousava a mão na cabeça, era eu pequeno, afagando-me com palavras de indizivel doçura que só as sabe pronunciar quem tem uma alma predestinada que encontra o bello ideal na contemplação das tres perfeições naturaes—creanças, musica e flores!
Elle appareceu, com a expressão jovial de sempre, envolvendo num olhar carinhoso todo o ambito da egreja com as pessoas que já lá estavam, e ajoelhou na escada do altar-mór, inclinando humilde e religiosamente a cabeça encanecida.
Assim permaneceu um quarto d'hora; depois, o capellão veio, já a egreja estava cheia de gente, paramentado e abrindo alas docemente por entre o povo que enchia a capella-mór.
Depois da missa, elle revestiu-se d'um pluvial e dirigiu-se para o altar onde o Menino Jesus estava reclinado no seu presepio.