Ha seis mezes, approximadamente, publiquei no Correio d'Albergaria um artigo sobre a vida do Belbuth, que subordinei ás Scenas da Aldeia, que eu declarei em preparação, mas que ainda existiam em projecto na minha mente. Passados perto de dois mezes dei principio ao meu trabalho e publiquei então no mesmo jornal um excerpto sobre a transformação psychica de Maria Luiza.
Por varias vezes hesitei se deveria continuar esta empreitada que me preoccupava o espirito, desviando-o do cuidado dos meus affazeres quotidianos, e absorvia o melhor do meu tempo que eu não podia dispensar sem prejuizo das minhas obrigações.
Mas, quando no meu espirito se travava a lucta da obrigação com a devoção, esta acabava por triumphar, coadjuvada por uma promessa que, de caracter inteiramente intimo, eu tinha feito um dia.
O meu livro está impregnado, na sua essencia, de um pronunciado sabor religioso, porque julguei que, tirar á simplicidade da vida aldeã o sentimento religioso, que caracterisa os seus costumes, era despil-a d'essa graça original e tão cheia de poesia que lhe dá todo o seu valor; julguei que era arrancar á vida da aldeia a sua alma.{17}
Obedeci a esse principio, e não á gratidão com que retribuo a meu pae—um padre catholico que obedeceu ao dever da sua consciencia e do seu coração quando me perfilhou—os desvelos que um filho recebe de seu pae carinhoso. Nem tão pouco obedeci á doçura dos fructos que deveria ter colhido da minha reclusão de alguns annos num seminario.
D'este só me lembro com mágua, quando considero a falta que me fazem os annos que lá gastei inutilmente. De resto, repressões, o pouco respeito com que os padres tratam um homem de vinte annos, etc., tudo isso lhes fica em caracter, e é tudo com o fim de amoldar ao seu o caracter dos alumnos: finalmente, cumprem o seu dever, porque são, por assim dizer, uns criminosos inconscientes.
D'elles só conservo um resentimento: alimentarem animadversão contra a minha terra—Aveiro, talvez por causa das suas tradições de inimiga da hypocrisia.
Um, chegou a dizer numa aula, na minha presença—quando se discutia no parlamento o projecto do caminho de ferro do Valle do Vouga—que todos os que se deixaram levar pelas palavras de José Estevam foram uma corja de brutos—palavras textuaes—porque a variante da linha ferrea que então se construiu, além de acarretar enormes dispendios á companhia, prejudicava immenso, por causa d'uma terra que não prestava para nada, sem valôr nenhum, toda esta região que anceava pela execução do caminho de ferro do Valle do Vouga.
Tirado d'isso, não tenho d'elles resentimento nennum. Apenas tiveram, com o culto das suas virtudes, o poder de me abalar algumas [crenças] que levava arreigadas no coração, e de apagar outras. Se ha quem diga que actualmente já se não fazem{18} milagres, ou nunca houve quem os fizesse, engana-se.
Já vê, pois, o leitor, que sou religioso e sou christão; não sou, talvez, catholico, mas isso dá-se na maioria dos padres, se não na sua totalidade.