Occultando, o mais possivel, aos olhares estranhos a impulsão que os anima um para o outro, esses{65} corações, quando sós, estudam-se mutuamente, em conversas banaes, conversas de creanças apaixonadas que não se atrevem a manifestar-se o seu amôr; mas nesse natural retrahimento, nessa timidez que os retem muitas vezes em silencio sem ousarem quebrar o encanto que sentem na contemplação mutua das suas almas, durante esse silencio em que cada um d'elles só ouve o ruido do pulsar do seu coração, as suas almas fallam, entendem-se, estudam-se, amam-se cada vez mais...

Penetremos tambem na cosinha.

A formosa Helena prepara, sobre a meza tôsca, a massa para as filhoses; com as mangas do vestido arregaçadas deixando vêr os seus bem torneados braços até ao cotovello, falla e ri com a sua peculiar jovialidade.

Na lareira, em volta d'uma fogueira onde arde um grande cepo, estão sentados o tio José, Julia, João, e, na extremidade do banco, Paulo.

O tio José entretem a familia com historias alegres que fazem rir todos, excepto o João que, com o olhar fito num ponto do brazido, parece alheio ao que se passa em volta de si. De vez em quando, despertando da sua abstracção, olha para o pae, passeia o olhar em roda, e volta a mergulhar-se nas suas reflexões.

—Ó paesinho! diz Helena ao pae, que acaba a narração d'um conto; isto está quasi prompto: agora é preparar a certã e fazêl-as. Mas, emquanto as faço, o pae ha-de contar aquella historia tão engraçada que nos contou o anno passado.

—Que historia?... Eu já me não lembro do que contei hontem...

—Aquella de um demonio que andava ás almas na noite do Natal e que, tendo ido a casa d'umas{66} pessoas que eram muito bôa gente, teve de fugir, porque se arriscava a ficar na certã das filhoses mais rilhado que um torresmo. Lembra-se?

—Ah! Ah! Ah! Bem sei! Bem sei! Essa historia ouviu-a eu contar á minha avó, era eu pequeno. Ha que tempo lá vae isso!... Mas como era o principio? Lembras-te?

—Tambem já não sei! Tu sábel-o, ó João?