Colhêra, no pequeno jardim que estava entregue aos seus cuidados, as camelias mais brancas e menos damnificadas pela frieza das chuvas, e alli, naquelle altar, as collocára uma por uma, pacientemente, com um angelico sorriso nos labios e nos olhos uma ternura em que se traduzia a candura da sua alma.

Ao terminar a sua tarefa, corrêra, cheia de contentamento, a chamar todos os da casa para verem a sua obra.

—Muito lindo! Está muito lindo! dizia-lhe o tio José, passando-lhe paternalmente a mão pela cabecita loira. Dou-te os meus parabens por teres tanta habilidade.{64}

—Logo, depois de ceia, vimos para aqui fazer serão? perguntou, radiante, Julia.

—Decerto! Havemos de vir fazer companhia ao Menino Jesus até á meia noite, que é para elle ser sempre muito nosso amigo! Agora vamos para a cosinha, emquanto a ceia se faz.

E ella deitou a correr aos saltinhos, adeante d'elle.

O coração sempre é um grande artista! Aquella creança, ha tres mezes ainda, tão triste, tão pensativa... Oh! o amôr! o amôr!...

É que Paulo e Julia amam-se.

Lançadas no berço da orphandade, essas duas almas, como dois infelizes que se encontram no mesmo caminho, contaram as suas maguas, compadeceram-se mutuamente, comprehenderam-se, deram-se as mãos, acalentaram-se, amaram-se e proseguiram juntas, não já pelo caminho agreste que as martyrisava, mas por uma vereda em que os espinhos tem a suavidade das rosas, em que já não ha agruras, onde tudo são madresilvas e violetas rescendendo um aroma inebriante. Esqueceram as desditas passadas para gozarem, juntos, os beneficios d'esta nova phase que a Providencia lhes deparou; e, junto d'esses dois lyrios, transportados d'uma encosta arida para a beira d'um fresco arroio, nasceu uma trepadeira de flores odoriferas, que os enleou, ás quaes flores um anjo, transformado em uma abelha, vem diariamente haurir o dôce nectar e o leva ao seio de Deus...

Paulo e Julia amam-se com um amôr todo ideal; amam-se com aquelle amôr dos corações predestinados que amam uma só vez na vida.