A linda caixinha passou de mão em mão até á compradora.

Todos admiravam as côres garridas do setim que a cobria, e apinhavam-se em volta da rapariga, anciosos por saber o que encerraria a caixa.

Presa a uma fita estava uma chave que foi applicada á fechadura. Todos, em bicos de pés, aguardavam a surpreza.

A chave deu volta... A rapariga levantou a tampa e de dentro saltou uma coisa que poz em murmurinho todos os que se apinhavam em redor.

Era um rato.{63}

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Retrocedamos á vespera do Natal, á noite da conçoada—a noite tradicional da confraternisação de todos os corações que, ligados pelo sangue e pelo amor, se reunem para, na santa simplicidade aldeã, offerecerem em holocausto a Deus, concretisado na pessoa d'um infante prestes a descer á terra, o que de mais puro e sincero ha nos seus corações transbordando do mais acendrado amôr divino.

Penetremos em casa do tio José da Alameda.

Antes de passarmos á cosinha, detenhamo-nos alguns momentos na sala, para contemplarmos um pequeno altar, profusamente allumiado, com um presepio onde um Menino Jesus parece estar suspenso numa nuvem de camelias brancas, tão brancas, tão puras, como pura era a alma de quem com tanto carinho e desvelo as collocou alli.

Fôra Julia quem se encarregára da confecção do altar, em que gastou duas horas.