Elle entrou, tartamudeando umas «boas noites» e todos o acolheram jubilosamente.
Deixemos o Belbuth conçoando com esta bôa gente e alegrando-a com narrações de episodios da sua longa vida de miseravel, e entremos na casinha modesta da Maria Luiza, que está triste e pensativa...
Triste e pensativa?! A Maria Luiza de ha tres mezes?!
Sim. Essa mesma rapariga, desembaraçada e alegre, que, no arraial do Santo Estevam, supplantara o João da Alameda, o cantador invencivel; a mesma da desfolhada, em que ella gosara o exclusivo do seu abraço, goso momentaneo que foi a origem de mil dissabores.
Na lareira da sua cosinha arde uma pequena fogueira, a cuja claridade a Maria Luiza costura debruçada: e a mãe, já velha, talvez de mais de sessenta annos, com uma roca a tira-colo, faz ainda girar o fuso entre os dedos com facilidade.{68}
As telhas, denegridas do fumo, e as paredes, de egual aspecto, dão um tom de tristeza áquella mansão de paz e socego.
No poste da chaminé, está dependurada uma candeia de lata, cuja luz, nos estertores da agonia, bruxoleante, augmenta a taciturnidade do aposento.
—Vae deitar petróleo naquella candeia, Maria, disse a mãe.
Ella levantou-se, deitou um olhar para a porta, ministrou á candeia o almejado liquido que fez soluçar a luz, tornou a olhar com olhos de anciedade para a porta da cosinha, e voltou á sua costura, dando um suspiro.
Porque olha ella tão insistentemente, perguntará lá para si o leitor, para a entrada do seu tugurio, e porque toma ás vezes no peito tanto ar, que ao expelil-o, semelha a aragem da tarde a agitar brandamente, em suave murmurinho, as espigas maduras d'uma ceára?