—Mas vá a mãe deitar-se, que eu espero ainda um pouco. Falta-me além d'isso ainda aqui uma bainha, e entretanto acabo-a. Talvez não falte...

Como deve ser ditoso ter esperança num coração que nos ama!

Deve ser tão ditoso esperarmos num coração que nos estremece, como penosa deve ser a deseperança num coração que idolatramos.

João amava Maria Luiza; ella bem o sabia, porque não ha ninguem que melhor leia nos olhos do homem apaixonado do que a mulher amada. E a mulher sabe, por instincto, que um homem não tem a habilidade com que ella finge um sentimento que está longe de possuir.

O João não havia, pois, de faltar. Não tinha elle sido sempre pontual em vir ministrar ao seu coração o alento de que tanto necessitava para não desesperar de viver?

Que significavam tres mezes de constantes provas de amôr, de tantas promessas e juramentos que{72} no auge da sua paixão, elle lhe fizera, traduzindo no olhar incendiado todo o fogo que lhe devorava o peito?...

Uma lufada mais forte de vento soprando nas arvores da rua arrancou-a á sua profunda meditação e fel-a olhar para a porta. Olhando depois em volta, viu-se só. Engolfada nos seus dôces pensamentos, nem notara a retirada de sua mãe.

O vento continuava sussurrando lá fóra, semelhante ao gemer do mar, e a porta já gasta da choupana rangia ao embate de cada rajada mais forte.

No sino da egreja de Eirol soaram onze longinquas e monótonas badaladas que Maria Luiza contou em crescente anciedade do seu coração impaciente.

—Onze horas!... Já tão tarde!... E elle sem vir!...