Ficou perplexa, a olhar para o sobrado, e estremeceu ao som de tres leves pancadas na porta.
Com certeza que não era o bater de João que ella tão bem conhecia, porque o coração começou a pulsar-lhe violentamente e ella, sem se levantar, perguntou, entre admirada e sobresaltada:
—Quem bate a esta hora?!
Em resposta, ouviu o ruido de uma bastonada applicada talvez á cabeça d'um homem, a seguir um gemido, e após isso a fuga de duas pessoas que se perseguem.
E nada mais ouviu, que as pulsações agitadas do seu coração sobresaltado e o sussurro do vento a soprar nas arvores do caminho e nos salgueiros sobranceiros ao Vouga.{73}
[VII]
Tres dias depois, o tio José da Alameda recebia a visita da snra. Joaquina das Dôres, uma creatura, que, á semelhança de mais meia duzia, frequentava diariamente a egreja na perfeita observancia dos preceitos do Divino Mestre.
Estas creaturas, umas verdadeiras corujas sempre mettidas pela egreja, tanto se servem da lingua para orar a Deus como para murmurar do proximo, assoalhando tôrpemente a vida intima de cada um. Não distinguindo, atravez da imbecilidade que lhes turva o cerebro, o grau de torpeza e abjecção que encerra o procedimento de vasculhar os actos menos meritorios que outrem pratique, não alcançam ao mesmo tempo a quanta belleza de virtude encerraria o seu procedimento se, em vez de auxiliarem a conspurcação da vida alheia, lhe tecessem louvores, ainda que immerecidos, tratando de occultar-lhe as manchas sob o pó bemdito da caridade.
A snra. Joaquina das Dôres era uma d'essas creaturas, que não pudera soffrer que um rapaz tão bom, tão sympathico, fosse arrastado tão cedo, e sem necessidade, ao bando dos renegados.
—Nada! dizia ella comsigo, tomando a resolução de se dirigir a casa do tio Alameda; isto não póde ser! O pae precisa de sabel-o, para desviar o filho do caminho do peccado em que anda!